
Ó poesia que me escapa
musa assassinada
serei eu o teu estrangulador?
Meus amigos são todos atinados na vida:
são fisioterapeutas
bancários
professores.
Ganham o pão com honradez.
Mas e tu poeta Kavita Kavita?
Tua labuta é o ócio
é sentir o dia tão absolutamente que
o desintegrar das nuvens lhe é audível
que
o envelhecer das coisas lhe é visível frame a frame.
Tua profissão é se doer pelas moças que vão e não vem
em tua carteira de trabalho abundam filosofias vãs...
O que fará agora sem ter como sobreviver?
Ah poeta
partícula substancial de memória
mundo inabitável que telescópio ou
microscópio nenhum lança o olho re-velador:
o que te roubou de tua sede?
Experiências não há mais em tua vida
o tempo da solidão (tão necessário)
não há mais!
As memórias se esgotaram
amantes não podem mais haver
a Lapa...
a Lapa agora é só uma desalmada
estampa em uma camiseta.
Não há mais nada em tua vida que
se possa habitar de poesia e
talvez agonize aqui
no corpo deste poema
os últimos versos que tu escreverá na vida.
Precisará poeta
daqui pra frente
buscar a religião ou
a auto-ajuda ou
as drogas ou
o suicídio...
Porque lhe parece que a poesia já
não quererá mais ser o seu modo de
se salvar do mundo.