terça-feira, 25 de dezembro de 2012

noite de natal


ingrid bergman não
virá essa noite

eu disse a ela que
aqui anda mais quente
que em marrocos aquele
dia em quarenta e três
mas
que comprei um ar-
condicionado para fazer
com que ela esquecesse
do humphrey bogart fumando
charmosamente seu cigarro
em preto e branco

mas ela nem quis saber

ingrid bergman preferiu
sonhar dentro dos noturnos
ventos almiscarados de
casablanca
e
com o rosto em close
- um sorriso rasgando
a tela grande da tv –
me disse que essa noite
já não virá mais

choque de cores


aqui não há praia e
isso é importante
afinal
estamos no rio e falar
do subúrbio é dizer uma
violência sem azul

mas

também é saber que
mais bonito que o
azul é o negrume dos
seus cabelos emaranhados
pelo vento férreo que
sopra lá das linhas de trem

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

philadelphia woman


tenho você nas primeiras
ondulações da manhã
na tela negra dos sonhos em
milhares de pontos de
led multicoloridos
(como poeira estelar)

na cinelândia noturna te
tenho entre fotografias e
na evaristo da veiga seu
riso frouxo correndo até
a curvatura dos arcos

no caos das imagens te
lembro e me esqueço
da anarquia do cinema

teu sotaque
teu modo de escrever
mezzo português
mezzo castelhano e
tua carne glacial que
por baixo da pele aqueço
com mãos e lábios

no cais do porto no
metrô da carioca é você
que me leva pelas mãos

dentro dos quadros de
eliseu visconti nos salões
iluminados dos museus a
tua silhueta minguada
no chiaroescuro

na copacabana noturna na
miguel de lemos os
teus olhos verdes claros
entre os postes nas
propagandas acesas dos
pontos de ônibus: teus olhos
acesos como punhos delicados
esverdeando através dos meus

preso as suas horas
esperando minuto a
minuto por cada
encontro onde cada vez
mais você desconstruirá hollywood
e usará essa sua arte ilógica
de sempre me mandar de
volta pra casa com frio: e
no entanto lá vou eu
atravessando as ruas suburbanas
no meio do dia útil
- chapéu de banda
poemas no coração
mulheres na história –
pra te encontrar e me sentir
o grande e último
latin lover da face da terra



sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

nathalia


definitivamente
o verão que a impiedade
destas ruas de concreto e gasolina
bafejam  não é o mesmo
verão de seus dias azuis

não são essas as mesmas horas

mas obscuramente
- como são as coisas da memória –
aparece aqui
no calor inclemente dos subúrbios
um pedaço indestrutível de
saquarema: a insolação traz aquele
movimento de cheiros que
recendiam permanentemente
sobre a pele dela: açaí
maresia e bloqueador solar

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

dezembro


o sol da manhã me
lembra de quando
éramos jovens e bebíamos
cicuta nas clavículas das
ruas bombardeadas de
neon e amônia

acordo e me pergunto:
porque tudo existe?
existiu? existirá?

mas você não deveria
me dar ouvidos ma petit:
tudo é só porque ando triste

sabe?
assim como um pneu de
automóvel que
após o acidente
rola sozinho
solto
e desaba no acostamento diante
dos olhos de um cão perdido
que é ainda mais triste e
é ainda mais eu

tudo me violenta e me indefine
e uma delicada saudade fúcsia
elucida que a falta de
dinheiro é transitório mas
a falta de amor pode cobrir
de resina os dias mais afetivos

e

os muros grafitados e as
linhas de trem e os
viadutos ululam gritos de
guerra como bárbaros nos
portões das casas onde
eu poderia me travestir de
velhas portuguesas preparando
ceias de natal em panos
de prato bucólicos

lapa
praia da barra
pedra do sal
jantares com amigas lésbicas
manequins destruídos
em puteiros novelescos
e
sobretudo
toda essa chuva por dentro e por fora
não dizem mais as
coxas e bundas veraneias
desferindo o carinho dos punhais
não dizem mais o apartamento
silencioso onde houve dias-jardim

mas pelo menos por agora
querida
não quero que me veja
aqui nesse quarto: como
um homem-elefante
tirando o pó das estantes e
escavando memórias dentro
das camaras escuras das gavetas
ancestrais

pois
ainda que haja a poesia
a minha a sua
aquelas escritas a quatro mãos
nos berços úmidos da humanidade
ainda que haja essa
luz e suas grandes áreas de sombra
essa liberdade doída diz que
em janeiro poderemos voltar
a tocar de leve na carne da alegria e
secretamente
fingirmos ter vinte anos novamente

samba de verão do subúrbio


sua pele glacial acesa como
um sol de outra natureza
sob os 40 graus em madureira

a faz

uma aparição delicadamente
bonita contra a violência do
trânsito e dos fios elétricos

mas sua pele intacta sem
uma gota de suor a trai:
é a falha que denuncia
que sua beleza impossível
- e alheia ao calor -
só poderá ser o verão ofertando
ao poeta uma gota de alívio
na ilusão de uma miragem

la grande jatte


diria que as
mulheres são
como estes
quadros impressionistas

de longe
uma
festa para os olhos

mas

de perto
uma
explosão de cores
em formas inapreensíveis

terça-feira, 4 de dezembro de 2012


o túnel rebouças
é negro e cheio
de spots laranja

no entanto

o homem rebouças
era negro mas não
tinha spots

o túnel rebouças
liga a mágoa a lagoa

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

1994


a emissora de rádio que
minha mãe escuta pela
manhã traz
- como uma visão
através do fundo de
um copo amarelado –
uma lembrança de infância:

a velha senhora
lavando a louça no
ar desbotado da
cozinha enquanto eu
calculava o movimento
das estrelas numa
equação de segundo grau

a mesa de madeira recendia
o cheiro de saudade o
assoalho rangia sonolências
e a janela que dava
pro quintal enquadrava
a grande angular daqueles
olhos verdes que me
esperavam e que
ainda hoje
na hora do café veloz
esverdeia de memórias
a pele cinza da manhã

soliticídios


o coração na boca as
mãos sujas de grafite
percorri a agenda telefônica
precisava desabafar precisava
de alguma voz amiga

mas hoje ninguém atendeu

com um gosto de cabelo
acidulando na língua corri
desatinado até a cozinha e
peguei a maior faca que
encontrei: levei pro quarto
tranquei a porta e
enquanto tocava o belchior
silenciosamente
comecei a esquartejar solidões

???


o que leva um homem
- que precisa levantar
as seis da manhã  -
acordar as quatro pra
escrever um poema
que diz que ele não sabe
porque escreve um poema
as quatro da manhã se
precisa levantar as seis?

máquinas fotográficas


tento medir o quanto
de amor é necessário
pra que ela pegasse o
telefone e chamasse
pro cinema o traidor

e ele (o covarde)
- que agora anda entristecendo
outros corações - recusou
menos por falta de dinheiro
e mais porque
em um dia de supremo desespero
ele assumiu de volta o mundo
e fez uma promessa ao
diabo que custe o que custar
vai ser feliz assim:

morrendo sozinho

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

cabaret voltaire



no aniversário de
andressa vrum-vrum
teve bolo salgadinhos
cerveja  refrigerante
pole dance e amor
de graça

foi uma festa vip pra
meia dúzia de convidados
(ela guardou uma cestinha
cheia de chocolates só
pra mim)

naquela tarde de sexta
o aniversario de 21 anos
de andressa vrum-vrum
foi uma festa no puteiro

boleros



acordar com ressaca
e os pelos do braço
ainda recendendo o
seu perfume poderia
me desnortear o dia
me fazer rodar a casa
inteira sem rumo

mas hoje é domingo
olho o céu azul através
da janela e prefiro
voltar a dormir

dissertação comparativa entre o amor e o relâmpago



o poeta jorge mautner
disse uma vez que “o
amor é como um raio
num céu azul de maio”

isso é um indício claro
que nem os poetas
de quilate sabem o
que é o amor (esse
mistério mais absoluto)

pois

consta no livro dos
recordes que determinado
homem foi atingido por
um raio 7 vezes ao
longo da vida

aos 71 anos ele deu
um tiro no próprio
estomago por causa de
um amor não correspondido
e morreu

de onde se conclui
que o amor é
em potência
infinitamente mais
mortal que a queda
de um raio

terça-feira, 13 de novembro de 2012

maracatu




que bom seria
uma mulher quase
anoréxica bebendo
os becos e comendo
os casarões escuros
da rua dos arcos

spleen



escrevo esse poema
no banheiro
há plantas na janela:
o sol faz força pra entrar

no banheiro agora
é sempre fim de tarde

lá fora (do outro
lado do vidro atrás
das plantas) um motor
guincha e assovia: um
trator revira a terra
sem nenhum carinho

quando ele para
permanece o tic tac
do relógio da cozinha
em descompasso
com o pulsar das horas
súbitas

não há nenhum
sentimento aqui agora
nem amor nem nada
só essa sensação de
peixe em aquário
redondo achando
que o olho do gato
que o espreita é
uma lua bonita

xilogravuras



esse sábado gasoso
esse fim de tarde plúmbeo
a chuva dissolvendo a
cidade
as luzes suspirando
as músicas no rádio (a
voz desse locutor)
acariciando as árvores
da pres. vargas que
dançam na solidão dos
ventos pluviométricos

ah a juventude!
se foi e deixou essa
saudade absurda da
sensação de amar e
não ser correspondido

Silvia


teus lábios: almofadas
no escuro
tua carne como
um farol aceso na
noite da minha pele
guiando meus náufragos
e procurando destroços
de embarcações ancestrais
nos meus braços rabiscados

mas é em teu rosto
cuja cor nos olhos
já são um
enigma completo
é em teu rosto onde
a cabeleira vermelha
derrama chamas sobre
a testa  glacial

é o teu rosto ruiva:
um sopro um mistério
e um déja vu

baudeleriana



onde andará esse
dragão mal tatuado
em seu braço?
inconcluso desenho
porque o tatuador
queria te comer e
você não queria

em que abraço
em que espaço
andará esse braço?

e essa mão que anda
presa a ele: que
destilado que cigarro
leva a tua boca?
que cabelos afaga?
(faz dez anos que não
tenho mais cabelos)

dias se rasgaram em
papéis em panos escuros
desde que descobriram
nossos poemas violentos
nossos crimes hediondos
e você
fugiu sem ao menos
mandar um bilhete
um email
uma carta
ou
me dar o cu

noção de tempo



desenterrei dos
azulejos do meu quarto
os ossos do meu
próprio fóssil futuro

olhei para um lado
olhei para o outro
e certo de que
ninguém estava vendo
pus-me a roê-los

paul klee



tê-la nua num
quarto de hotel cheio
de verão foi quase
um devaneio uma
nebulosidade de papoula

tê-la entre o sono e
a juventude dos lençóis
recém-lavados
- tigre rugindo de dentro
da noite da barra da tijuca –
e esquecer das neuroses e
incomunicabilidades que
caíam junto a chuva
ácida do redentor

conhece-la  nua
rasgando os véus do tempo
revirando os olhos no
silêncio derramado das
taças brutas e destilando
incertezas entre as
fronteiras do colchão
para que
no final de tudo
eu amanheça vermelho
e só (mesmo com
ela ao meu lado)
na sonolenta lagoa da barra

e descobrir ainda que
não importa abismos
entre idades
nos jogos de guerra
um homem feito sempre
se saberá frágil e condenado
perto de meninas insatisfeitas
e ferozes como ela

voyage dans la lune



mais um dia
mais um banco:
“desculpe senhor mas
há uma restrição em
seu nome”

mas como exigir a um
poeta que se preocupe
com dinheiro?
é como pedir a uma
baleia que pilote um
carro esporte: tão
gigante de tamanho
tão habituada as
profundezas
como caberá ela em
pequenas coisas
que saberá ela de
sistemas e engrenagens?

os poetas e as baleias só
querem saber da vida

museion



senti o poema prestes
a rebentar a deflagrar-se
sobre o colchão

seria todo sobre o tédio
sobre o cheiro agridoce
de sonho quando acaba
sobre o vento matutino
sussurrando palavras
de solidão

mas vi por sob a
soleira da porta a sua
sandalinha que ficou aqui
empoeirada
e
abandonada dos
seus pés  tamanho 36

a chegada desses versos
no meu íntimo sofreram
um severo distúrbio: a
vida arrumou um
jeito sorrateiro de te
intrometer nesse dia

portanto pororoquinha
mesmo na distância
eles dois agora são seus

disritmia



enquanto você dorme
eu tento decifrar em
teu rosto a simetria
esfíngica de todas as
mulheres que dormem

mas
logo a primeira luz se
esgueira
escorrendo lentamente
pelas cortinas e a
claridade silenciosa afugenta
da tua bunda perfeita
os restos da noite morrente

já pela manhã
cansados e ainda meio bêbados
enquanto tu põe tuas
calcinhas pra lavar (meu
olho em sintonia fina nas
matizes do teu corpo)
tu me fala do
teu ex-namorado francês das
árvores da Champs-Élysées da
beleza das flautistas parisienses
e coloca no copo de leite que
me serve duas colheres de
açúcar e uma outra de
je t'aime mon amour

casamento



o vestido branco se
consumindo nas luzes
fosforescentes enquanto
a trama da renda é
um texto onde se decifra
futuras rugas e
tragédias íntimas

mas hoje
só por hoje
eva e adão dançam
abandonados do mundo

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

método de francês




Para Ingrid


as pessoas vem e vão
apressadas e os carros
correm enquanto as
lojas crepitam e só
nos dois sabemos
do sol morno dessa
manhã de sexta-feira

caminhamos asfixiados
pelas sombras dos
prédios e sentimos
luto pelas
casas que morrem

mas o almoço chega
e é lento menos
pros trabalhadores
que nos cercam:
eles tem relógios mas
nós dois desfazemos
ponteiros dentro da
claridade do dia

sentados no parque
- de barriga cheia -
sob as árvores sonolentas
converso com os
vestígios de sol ao
mesmo tempo que
vejo você soltar seus
elefantes na avenida
para que possam
esmagar cotidianos

você me mostra
livrarias que nunca fui
te compro um livro e
você rói a barra da
tarde folheando
um schiele
enquanto digo que o
ideal seria a vida vadia
assim todos os
dias e com isso te
faço sorrir (as covinhas
que são tão você nas
fotografias) e a contração
das tuas bochechas faz
o mesmo som que faz
a manhã quando nasce

deméter melancólica




a primeira primavera
sem você
chegou glacial

serão assim
todos os finais
de setembro
a partir
de agora:
separados aniversários
em primaveras
vestidas de inverno?

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

morangos silvestres




teu corpo fino põe
em escombros o
corredor em que
caminhas trazendo os
olhos claros como
um par de verdes
declarações de guerra

atendo teu chamado pra
um café e enquanto
flanamos o ar
se despedaça na chuva de
uma primavera glacial

e o teu sorriso (que
quase não existe) cinde a
avenida jardim botânico
quando percebes que
meu exército já se
reuniu rendido ao teu

e só a lagoa
só a lagoa rodrigo de
freitas salpicada de luz
será capaz de resistir
ilesa aos bombardeios
que tua cabeleira
jogada assim de lado
despeja sob os
céus da cidade

milla jovovich três vezes por dia de oito em oito horas




tenho muito sono
e muita preguiça e
quando estou assim
tudo me alucina:

essa manhã tua pele
nefertiti
teus olhos de guaraná
penélope cruz

cinemascope




branco o teu rosto
refletido no vidro as
luzes brancas os
fantasmas da baía

a noite é quente mas
as águas (que não toco)
são geladas são limbos
escuros onde barcos
inscrevem suas lâmpadas
chorosas e comungam com
a língua dos abismos

mas o delírio se rompe
quando tu se levanta
sem me ver: me
escondo pois não quero
o teu sorriso não
quero a faca entre os dentes

tu abraça as cores nas
tatuagens dos seu novo
namorado antes de partir e
desgrava teu rosto pálido do
vidro: onde antes ele era
resiste a cidade em pontos
de luz balbuciantes

tudo é solidão na
inexistência das esquinas
e o cheiro de maresia
persiste ainda nas tímidas
e úmidas ruas de niterói


christopher reeve




à tardinha a central
do brasil se reparte
em mil:

carros
guardas de trânsito
mulheres mendigos...

é quando
pra rejuntar todos
os fragmentos da
avenida despedaçada
sua mensagem
chega serenamente:

to t esperando na livraria. bj

mal do século




rita tem 16 anos e
disse que me quer

rita está no ensino
médio e come vegetais
para não engordar

pensei que neste
mundo veloz eu já
poderia ser o pai de rita

mas rita há muito já
não brinca de boneca e
sabe falar de poesia
como poucos (mas rita
detesta poesia)

rita tem 16 anos e
numa noite absurdamente
quente recostada nas
grades do portão da
sua casa no bairro de
cascadura
disse que me quer

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Fim de Agosto



A chuva fraca pontilha
as superfícies da cidade
(vidro concreto aço)
enquanto volto pra casa
digladiando o frio afiado
reinando sobre os espaços de
noite absoluta do cais do porto:
eu sou uma solidão existindo
entre os carros.

Madeleine



Ela tem cara de casarão.

Desses de escada que range sob
a luz fraca afogada pelo
cheiro de mofo e madeira.

Ela se veste como uma tipografia
art-noveau de aço sobre uma portaria
com grade sanfonada.

Seus cabelos parecem roupas
no varal de um dia num pátio
úmido depois da noite de chuva.

Ela tem corpo de quarto quando amanhece
a primeira luz batendo
recendendo a colônia dos móveis coloniais.

Ela é linda.
Ela tem cara de casarão.

E cada gesto dela é repleto de memória.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Projeto Hitlerista Para Extinção da Arte Moderna



Rótulos de destilados em
prateleiras de bares sujos são
uma coisa bonita.
Outra coisa bonita são
normalistas com seus cabelos
molhados na poeira das
6 horas da manhã.

Come Undone tocando no meio
da madrugada chuvosa é
uma coisa lindíssima.
Mas cruzar a noite chuvosa entre
faróis lacrimejantes da Barata Ribeiro é
mais lindo ainda.

As ruas desertas do Centro em
dia feriado são de uma beleza insuportável.
Como também é terrivelmente bonito um
poeta anoitecendo as horas e as
palavras em seu quarto.

Chegam a doer de tão belas as
atendentes chinesas das pastelerias no
meio do dia tórrido.
E ferem de tão belas as fotografias
dos amigos (todos jovens)
afogados no azul dos verões irresponsáveis.

Uma coisa serenamente bonita é
escrever um poema na
Rua do Lavradio embriagada.
E uma coisa violentamente bonita são
os transex sorvendo as luzes
artificiais e frias na Rua da Glória.

Ou ainda a respiração de um cão
dormindo enrolado.
Ou ainda o piso rachado da casa da
avó falecida reverberando pelas
pinturas da memória.

Ou ainda derradeiramente te olhar
pintando os cílios de frente pro espelho
imersa na iluminação vinho desse
quarto de hotel.

Manifesto Surrealista de 1924



Ou
teu corpo fino à contraluz
abrindo as janelas de
madeira e delineando sua silhueta o
sol que banha as pedras portuguesas o
casario os trilhos do bonde os
liquens após a noite de chuva em
Santa Teresa

ou
tua cara de sono a camisola de
seda cinza num apartamento de
Copacabana sob a luz alaranjada dos
abajures que cinge os cristais o tictac do
relógio de corda europeu enquanto um
ou outro motor morde a madrugada na
Siqueira Campos

ou
talvez tudo isso seja apenas um
sutil devaneio num banco de
espera do metrô da Linha Um.

Gotham City



As luzes são diamantes vivos que
carbonizam e morrem frias no
asfalto enquanto o copo de conhaque
ajuda a mesa do canto mais escuro a
entrincheirar esses olhos que se
perfuram de desejo e desesperança.

Mendigos cortando os pelos do
nariz sob o viaduto reformado enquanto
bombas e anjos despencam sobre os prédios.
Desde o doce crime ando assim
pelos cantos mais escuros
ensimesmado
com medo de ser pego.

Cães pernetas ladram enquanto carros
desrespeitam os sinais vermelhos:
não é mais amor o que carrego
dentre os abismos da cidade:
cada uma dessas mulheres aqui é
uma amostra efêmera da
pesquisa científica que me consome.

terça-feira, 24 de julho de 2012



ando ouvindo salif keita pelas manhãs sonolentas e acho que assim eu melhoro alguma coisa no dia pois tendo a roubar um pouco da nobreza de salif keita poderoso como um rei orixá albino cujos os olhos moram na voz e que vai lançando seu canto através dos ventos mandingos através dos vales malineses e desse jeito vou me descobrindo cantando pra você que não está mais aqui misturando café ao meu leite e percebo que na verdade é um desejo de te cantar em alguma língua africana o que seria digno como te louvar com a voz de todos os antepassados em mim.

De Esquina



Vive a atriz rodopiando sob a
luz estroboscópica das minhas
vertigens enquanto a Lapa amanhecendo
(o domingo que nunca acorda)
submerge em mim.
Na impiedade geométrica das
tuas ruas eu vou deixando pra
trás enormes pedaços do que
em mim
já não posso mais suportar.
Na incongruência das esquinas carros de
polícia e teus olhos castanhos ensaiando
lágrimas de água com gás.

Teus olhos que
a cada esquina
me desferem socos no peito.

Mas o medo persiste.
Medo de te encontrar entre as
cores das festas que não faço e você
como é de costume
me agredir com a delicadeza da
tua presença e me empurrar violentamente
ao longo dos caminhos mais certos.

Eu nasci pros caminhos tortos.

Mas ainda agora aqui havia
uma atriz e talvez ainda existam
aquela literata e uma escritora que
espero de pé no limiar dos abismos tristes
no antiromantismo dos monitores na
maresia cosmopolita dos apartamentos de
Copacabana nas salas dos teatros pouco
vistos na iluminação art deco das cafeterias.

Há bananas verdes na fruteira da cozinha e
filmes sobre o Nacional Socialismo Alemão
na estante do quarto enquanto te espero.

E um dia te quis magra e um dia
te quis fogo e você
no entanto
me queria de qualquer jeito menos
esse traidor que transa com as
luzes dos postes e dos faróis e
pisando na urgência de outras flores
ainda te espera  sem esperança.

domingo, 15 de julho de 2012

Belíssima



A musculatura das tuas costas no
chiaroescuro do balcão do Teatro
Odisséia denunciam a tua
estrutura de sonho.

Já pela manhã
segue sozinha pela Mem de Sá e
pondo o casaco preto
abraça a si mesma entre os
cartazes vermelhos do Circo Voador.

Central do Brasil



Vocês duas que levam os
vestígios do meu abraço em
tuas malas em teus aviões.
Levam o perfume do meu
pescoço na ponta dos teus
narizes gelados.
Vocês duas que
em seus copos de caipirinha
embebem e bebem minhas
neuroses e minhas crises.
Vocês que capturam o meu
orvalho em tuas rosas úmidas.

E no final das contas
- filhas de Copacabana –
apresento-lhes a Lapa e no
mesmo instante ela já é de
vocês aonde quer que forem.

Antropologia.
Fotografia.
Não tenho grana não tenho
estirpe e nem formação
dos meus antepassados só
herdei esse afetuoso banzo.
O que eu trago então para que levem tanto
e aqui
em suas camas de frente pro mar
deixem apenas uma fagulha de mim?

Verdade da Solidão



A solidão é um silêncio e
uma imobilidade.
A solidão é uma lacuna o
espaço entre duas palavras e
se a procuro avidamente é
porque anseio esse respiro.
A solidão é um reencontro um
mergulho íntimo e a paz possível.

E paz nada tem a ver com a vida:
a solidão é o meu momento de
estar fora da vida.

Em um Dia de Amor



A janela da barca e teus
olhos azuis sorrindo para
a Ilha Fiscal.

A Zona Sul e o Centro se
dissolvendo na luz do
fim da tarde.

A plataforma de petróleo se
contorcendo no abismo noturno
da Guanabara.

A Lapa sonolenta existindo nas
pulsões do corpo (cabelos
tatuagens coxas bundas).

As ruas do subúrbio
na madrugada
sangrando sirenes silenciosas.

Imagens que trouxe esmagadas
entre minhas pálpebras e que
ao chegar em casa
caíram todas pelo chão do quarto.

Poema Delicado



Não
não me deixe esquecer
ao acordar
do teu olho de ferrugem
que ao me sentir passar me
seguiu sem enxergar.
Me traz essa vontade de
ser mais bonito
me dá essa ânsia de esforço
para que olhos solares
como os seus
se imantem a minha pele.

Não
não me deixa agoniar no
rosto da criança que foi
por um segundo o teu
atrás dos antigos vidros
escurecidos de gasolina
o giz nos dedos
estudando com rigor de ciência
os biscoitos de polvilho:
aqueles comprados sob um sol
que nos esquecemos onde nasce.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Anakin Skywalker



Acordei como quem emerge sem fôlego
desnorteado
rodando a casa
uma canção de João Bosco no rádio
um filme de Iñarritu na mão:
não sabia o que procurava mas
o sol no terraço me acalmou.

As casas as indústrias os barracos dormitam
na neblina da manhã:
um véu esbranquiçado empalidecendo
o corpo azul do sábado.
Só as árvores jazem acordadas e
conversam comigo poemas do sereno e
coisas da solidão.

Há poluição e fumaça de óleo diesel já
a essa hora e um trem de
carga soando distante (como soam todas
as coisas na manhã vagarosa).
Os livros me esquecem perdidos em
caixas de um quarto empoeirado e úmido:
tudo é um não-querer ser.

Mas o dia vai ser longo e
a tardinha será de sol e minhas
carências e angústias se aniquilarão todas
no caos das ruas e das saias dionisíacas.
E teremos nossa filosofia embriagada:
Freud Castañeda Blake Kerouac todos
bêbados trocando as pernas na noite morna.
E ando me apaixonando uma vez por semana
- mas não por você nietzscheana -
e isso parece o processo final de quem
por saudade e culpa
teve a sua temporada no inferno e voltou para
entalhar na pedra das manhãs sonolentas:
Adeus velho amor
adeus adeus
é hora de reencontrar a paz na solidão.

A Invasão da Normandia



Que lugar é esse?
Quem são todas essas pessoas?
Rostos fugazes que podem nem
existir nas incongruências das esquinas.

Encostado num poste esperando que
o mundo se acabe ou apenas
que alguém me sorria e diga
alguma palavra de afeto e que
isso possa ser uma salvação.

Enquanto isso
putas de vinteecincoreais passam
brincando e gritando querer dar o cu e
adolescentes bêbadas recendendo a
colônia querem na madrugada receber
todos os sacramentos entre as pernas.

Não temos família
nós os vadios
atrás de mais uma cerveja de
um pau de uma boceta para
adensar a angústia que nos fabrica
o absurdo da existência animal.

Encostado num poste
entre burgueses
estrangeiros desabrigados e ladrões
esperando que o Rio de Janeiro se
esfarele inteiro e com isso
tudo passe a cheirar um
pouco menos a abismo.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Ars Moriendi




Agora eu sei realmente que
junho chegou: a cidade aguada de
cinza e os pingos de chuva se
espedaçando no asfalto e se
chocando no pára-brisa dos automóveis.

Sentado à mesa solitária
afrontando o frio da tarde com
um copo de açaí eu assisto como
quem assiste ao cinema um
casalzinho de estudantes.
Ela contra as grades
envergonhada
tapando o rosto com as mãos
e ele
a pressionando com indiretas sussurradas
falando e abrindo os braços e se sacudindo
fingindo calma enquanto olha
fixamente pra boca da pequena.
Sei o quanto o coração deles deve
estar bombeando a todo o vapor.
Até que ela cede e eles se beijam contra
as grades na tarde da terça-feira útil.

Sorrio de banda:
não importa a idade o
xadrez é sempre o mesmo.
É a primeira vez deles e sei que
assistir aquilo é uma oportunidade
rara no desamor do subúrbio:
dois seres se desejando dentre a frieza dos prédios.

E pra um velho como eu
- cujo os dias já não suportam mais o amor –
aquilo deixa de ser cinema e
passa a ser um maravilhamento incabível.
Sentado à mesa solitária
afrontando o frio da tarde com
um copo de açaí
sinto que esse enlaçar de corpos tem
a potência e a beleza que deve ter
contemplar a morte de uma estrela.

Alta Idade Média



Onde agora você
que rebentava em mim e
fugia entre os dedos?
Onde agora nessas semanas gosto de chumbo?
Cada dia de ontem é
um passado distante
quer dizer
acho que cada vinte e quatro horas é
uma era inteira.

Onde você agora
poesia libérrima
poesia invernal?
Quando mais preciso de você
entrego-te ao carrasco e
te deixo agonizar no antiromantismo
do computador.

Lídia e Patrícia



Mulheres sonhando à boca da noite
sozinhas dirigindo seus automóveis.
Mulheres tristes e imperfeitas na
chuva ácida da cidade.

Mulheres pequenas
mulheres poemas.

“Dindinha lua brilharia mais no céu”



Sabe
perdeu-se a receita da tua felicidade.
Igual a ti não haverá mais ninguém:
tens essa beleza de dia de domingo
quando desata a chover.

Abrirá as cortinas e beijará o sol
gostará de filmes franceses e
conhecerá outros países e será
uma alegria descobrir que as orquídeas
te saúdam na mesma língua em
qualquer outro lugar do planeta.

De um jeito ou de outro serás rica.
Tu semearás asas nas pessoas.
E quando chorar
-cristais delicados se chocando –
todas as coisas chorarão junto e te aliviarão.

Eu sei
- e talvez tu ainda aches que não –
mas terá ao teu lado um homem gigante
pois essa é a tua altura.
E será um sentimento indescritível ver
seus filhos sentados à mesa num
café da manhã de um sábado sonolento.

Verás cores novas em dias de
céu claro e sorrirás pros aviões que
fissuram o absurdo azul.
Viverás de arte:
tuas aquarelas terão cores que
acendem nos dias escuros e quando
fotografar as casas velhas
por um segundo nelas
(apenas por um segundo)
lembrarás de mim.

Setembro continuará sendo teu
aniversário e sufocada de sorrisos e
abraços via-lácteos de quem te
quer bem deixará a primavera vir
morar em teu colo.
Há de ser uma velha teimosa e hospitaleira
regando seus jardins em uma
rua silenciosa e esquecida da cidade.

Ah leãozinho leãozinho
será linda a tua vida e mesmo
eu tendo sido bandido
terei sorte se
entre tanta mágoa
em um dia ou outro
lembrares de mim como o
menino poeta e perdido que
se protegia do mundo debaixo dos
babados do teus vestidos.