domingo, 13 de fevereiro de 2011

Peixe-Palhaço


Quando ela parou ao meu lado num
ponto de ônibus da Nossa Senhora de Copacabana
eu vi que ela era tão bonita
que dilui do meu olho o horizonte de
poste e asfalto de onde viria a condução.

Mas ela era tão masculina que
quase poderia ser um garoto...

Pensei que só eu sendo tão mulher
desse jeito que eu sou
para admirar alguém tão homem
do jeito que ela era.

De Dentro da Vida


Televisão ligada:
misses sorrindo na Venezuela
mísseis caindo sobre o Afeganistão.
Enquanto isso
este sujeito silencioso que
atende pelo nome de Luis Claudio
(ora Kavita Kavita)
prepara sonolento
um copo de leite numa
cozinha da rua Frederico Méier.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Meia-Hora


Enquanto você dorme
(você que não dormiu a noite toda)
da porta do quarto eu
te lanço meu olhar mais terno.
A tarde é silêncio
as cortinas estão fechadas...
Só o ventilador acaricia suas
perninhas cruzadas iguais a de
criança que a mãe embalou antes do sono.

Dorme que teu sono é merecido.

Dorme menina forte e chorona
descansa que eu te velo aqui da porta
como a única coisa que posso fazer
por não ser tão belo
por não te merecer em todo tempo
por nunca conseguir estar a altura da
tua paz
da tua angústia.

Você não sabe
mas eu sou teu também
no teu sono.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Meditações Extemporâneas


I
O instante-intervalo entre as
batidas de um coração são
o silêncio mais absoluto que existe.
A via-láctea inteira (com sua
mudez eterna) é este átimo de
um pulsar.
A vida é o átimo de um átimo
por isso pra nós
que vivemos a milhões de anos
entre duas pulsações
o silêncio do universo parece infinito.

II
Conheci mulheres que me pediam para
escrever quilos de poemas sobre elas
como se a poesia fosse um objeto de fábrica...
Mas como escrever tanto se
a minha vida
a vida delas
a vida de todos os outros
se resume a um único verso?

A vida é um único verso.

III
E eu aqui grão
eu aqui ínfimo
um verme de curta duração
que revolve a culpa (como se fosse
excremento) por saber
que enquanto outros vivem verdadeiras tragédias
minha agonística máxima é escrever poesia
é achar atrizes pornô parecidas com ex-namoradas.


IV
Este poema nada mais é
(como qualquer outro é)
a reafirmação de que tudo o que
parte não se vai absolutamente.

A carne do poema é a memória
o íntimo é a saudade.

Por isso não esqueço as fórmulas
que nós os alquimistas
usávamos para transubstanciar cerveja
em panacéia nos bailes funk da Vila da Penha.

V
Quando Nefertiti apareceu
bebendo uma tequila atrás da outra
(o cigarro aceso na mão)
em cada trago até a sua careta era linda...
Ela havia se tornado todo fenômeno possível:
Pro meu olho
enquanto ela estivesse ali
ela seria a paisagem inteira.

VI
O tempo do universo é o tempo de
um único pulsar.
A vida é um átimo de um átimo.
E um dos milagres reside nessas belezas que
quando surgem (a tequila o cigarro)
nos roubam qualquer temporalidade
e transcendem nossa finitude toda.

Ennui


Antes bicho que homem.
Antes um cupim
um cágado
um urubu-rei.
Antes um bicho que este homem.
Assim não conheceria essa
tristeza que é só de homem.

Meu corpo anda amanhecendo muito lento
meu estar nas horas é quase um sono
toda minha fala é uma nolição da
minha língua...

Queria o poema assim:
altivo em sua dor
imenso de não caber mais todo esse tédio.
Queria um poema como um
non-finito de Michelangelo
este deus frágil que só sobreviveu
enquanto soube fazer sua angústia ir
morar no mármore.

Nasci com esse rosário de vontades
em torno do pescoço e
cada poema
cada masturbação
é uma oração que faço enquanto vou
me esvaindo pelas geometrias do apartamento.
Mas não há paraíso possível a
quem só louva o corpo
(não há Beatriz pura nos lugares onde
desejo estar)...

Só há inferno para quem olha nos
olhos dos pássaros sem mundo
engaiolados nas varandas
e recebe deles o convite para assobiar
o canto dos prisioneiros.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Diálogo Amoroso


I
Rua do Riachuelo às 5 da tarde
teu ar já é de uma densidade outra
mas os homens de terno e celulares
os mercados os bazares abertos
não te dizem.
Te dirá a noite e teus boêmios
os chapados e os suicidas
os notívagos indo e vindo da Lapa
te dirão os poetas e os transexuais
ó Rua do Riachuelo!
Eu te direi em cada sílaba ao
longo do caminho
cada letra será uma estrela fria no
céu da minha boca.
E iremos juntos assim nos anoitecendo.

II
E na Lapa foi onde eu me
esqueci junto com toda minha substância
tuas esquinas de cerveja e urina já
nem devem lembrar mais do meu rosto.
Sob a luz fria dos teus arcos eu
era um flaneur furioso
um melancólico um maldito
um decadent:
eu era um Baudelaire suburbano
embriagado de vinho e poesia
embriagado pelos afetos em escala industrial
que secretavam tuas meninas.
Este poema é pra te dizer Lapa
que ando te desejando a cada sono
teus carnavais
tuas madrugadas de poste e chuva
mas te troquei por uma vida de amor...
e o amor Lapita my darling
você sabe
nunca aprendeu a respeitar paixões.

Duas Cenas Para Serem Filmadas Como na Década de 20 em Weimar


I
Pelas ruas de movimento em Madureira
caminha o poeta Cesare.
Caminha não: sonambula.
Entre a vertigem da voragem consumista
ele passa de esguelha
bidimensional e incólume (leve e lento)
como o reflexo nas vitrines
(não sente o corpo
ninguém o esbarra
talvez ele seja o reflexo absolutamente).

Ao chegar ao entorno do shopping
no ponto final do 254
impossível a Cesare não lembrar de
antigas febres sob a chuva.
O peito ozoniza como naquelas
mesmas horas de um setembro
perdido no escoar dos anos.

Ali Cesare pensa na mulher com
nome de uma antiga polis grega (mas
que chamaremos de Elizabeth Bathory
devido as semelhanças).
Pensamentos fortalecidos pelo fato de que
na semana passada ele decifrou o
jeito dela no jeito de uma atriz coreana num
filme do Clint Eastwoood.
E agora anda reconhecendo o rosto dela nos
rostos das modelos nas propagandas
de lingerie.

E até Cesare voltar pra casa
ele sente que cada passo por essas ruas
serão esforços insuficientes para saltar abismos.

II
Na porta da boate com
seu vestidinho branco e botas de couro
Louise Brooks com seu cabelo Chanel
deu um último trago no cigarro antes de vir
olhar nos olhos do poeta Cesare e
saudá-lo de forma dantesca:
-Pape Satan, Pape Satan, Aleppe!

A noite toda ela trazia nos lábios
um gosto de absinto e
entre os peitos um cheiro de incenso barato...
E Cesare pensou que há mulheres que
são tristes (apagadas) pela vida toda...
Mas existem essas (como “Elizabeth”
como “Lulu”) que são atraentes até durante o
mau gosto de uma crise de ciúmes.
E mulheres desse naipe com
sua sexualidade elevada ao nível
de uma Beaux-Art
alumiam qualquer recôndito de desejo.
Para homens sombrios como Cesare
criaturas assim
doem pelo corpo todo.