domingo, 15 de julho de 2012

Belíssima



A musculatura das tuas costas no
chiaroescuro do balcão do Teatro
Odisséia denunciam a tua
estrutura de sonho.

Já pela manhã
segue sozinha pela Mem de Sá e
pondo o casaco preto
abraça a si mesma entre os
cartazes vermelhos do Circo Voador.

Central do Brasil



Vocês duas que levam os
vestígios do meu abraço em
tuas malas em teus aviões.
Levam o perfume do meu
pescoço na ponta dos teus
narizes gelados.
Vocês duas que
em seus copos de caipirinha
embebem e bebem minhas
neuroses e minhas crises.
Vocês que capturam o meu
orvalho em tuas rosas úmidas.

E no final das contas
- filhas de Copacabana –
apresento-lhes a Lapa e no
mesmo instante ela já é de
vocês aonde quer que forem.

Antropologia.
Fotografia.
Não tenho grana não tenho
estirpe e nem formação
dos meus antepassados só
herdei esse afetuoso banzo.
O que eu trago então para que levem tanto
e aqui
em suas camas de frente pro mar
deixem apenas uma fagulha de mim?

Verdade da Solidão



A solidão é um silêncio e
uma imobilidade.
A solidão é uma lacuna o
espaço entre duas palavras e
se a procuro avidamente é
porque anseio esse respiro.
A solidão é um reencontro um
mergulho íntimo e a paz possível.

E paz nada tem a ver com a vida:
a solidão é o meu momento de
estar fora da vida.

Em um Dia de Amor



A janela da barca e teus
olhos azuis sorrindo para
a Ilha Fiscal.

A Zona Sul e o Centro se
dissolvendo na luz do
fim da tarde.

A plataforma de petróleo se
contorcendo no abismo noturno
da Guanabara.

A Lapa sonolenta existindo nas
pulsões do corpo (cabelos
tatuagens coxas bundas).

As ruas do subúrbio
na madrugada
sangrando sirenes silenciosas.

Imagens que trouxe esmagadas
entre minhas pálpebras e que
ao chegar em casa
caíram todas pelo chão do quarto.

Poema Delicado



Não
não me deixe esquecer
ao acordar
do teu olho de ferrugem
que ao me sentir passar me
seguiu sem enxergar.
Me traz essa vontade de
ser mais bonito
me dá essa ânsia de esforço
para que olhos solares
como os seus
se imantem a minha pele.

Não
não me deixa agoniar no
rosto da criança que foi
por um segundo o teu
atrás dos antigos vidros
escurecidos de gasolina
o giz nos dedos
estudando com rigor de ciência
os biscoitos de polvilho:
aqueles comprados sob um sol
que nos esquecemos onde nasce.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Anakin Skywalker



Acordei como quem emerge sem fôlego
desnorteado
rodando a casa
uma canção de João Bosco no rádio
um filme de Iñarritu na mão:
não sabia o que procurava mas
o sol no terraço me acalmou.

As casas as indústrias os barracos dormitam
na neblina da manhã:
um véu esbranquiçado empalidecendo
o corpo azul do sábado.
Só as árvores jazem acordadas e
conversam comigo poemas do sereno e
coisas da solidão.

Há poluição e fumaça de óleo diesel já
a essa hora e um trem de
carga soando distante (como soam todas
as coisas na manhã vagarosa).
Os livros me esquecem perdidos em
caixas de um quarto empoeirado e úmido:
tudo é um não-querer ser.

Mas o dia vai ser longo e
a tardinha será de sol e minhas
carências e angústias se aniquilarão todas
no caos das ruas e das saias dionisíacas.
E teremos nossa filosofia embriagada:
Freud Castañeda Blake Kerouac todos
bêbados trocando as pernas na noite morna.
E ando me apaixonando uma vez por semana
- mas não por você nietzscheana -
e isso parece o processo final de quem
por saudade e culpa
teve a sua temporada no inferno e voltou para
entalhar na pedra das manhãs sonolentas:
Adeus velho amor
adeus adeus
é hora de reencontrar a paz na solidão.

A Invasão da Normandia



Que lugar é esse?
Quem são todas essas pessoas?
Rostos fugazes que podem nem
existir nas incongruências das esquinas.

Encostado num poste esperando que
o mundo se acabe ou apenas
que alguém me sorria e diga
alguma palavra de afeto e que
isso possa ser uma salvação.

Enquanto isso
putas de vinteecincoreais passam
brincando e gritando querer dar o cu e
adolescentes bêbadas recendendo a
colônia querem na madrugada receber
todos os sacramentos entre as pernas.

Não temos família
nós os vadios
atrás de mais uma cerveja de
um pau de uma boceta para
adensar a angústia que nos fabrica
o absurdo da existência animal.

Encostado num poste
entre burgueses
estrangeiros desabrigados e ladrões
esperando que o Rio de Janeiro se
esfarele inteiro e com isso
tudo passe a cheirar um
pouco menos a abismo.