sexta-feira, 9 de abril de 2010

A Existência do Relâmpago


I
O que vê um relâmpago antes
de fender o céu?
Coisas e pessoas diminutas:
alvos em potencial.
Mas seu existir é uma fração
um átimo...

Sem tempo de mirar ele se
precipita quase sempre em vão
quase nunca cai no mesmo lugar
(mas sim senhores
ele cai).

II
Eu li no Livro dos Recordes que um
homem sobreviveu ao longo da vida
a queda de cinco raios sobre ele.
Ele cometeu suicídio por
um amor não correspondido.

Fico pensando que eu não
sobreviveria a um raio sequer...
mas já sobrevivi a uns cinco suicídios por amor.
Mereço o Livro dos Recordes?

III
Estou precisando sorrir.
Por isso
aqui na casa sem luz
eu fico de olhos fechados sobre o colchão
só para que cada vez que vare um relâmpago
eu tenha um segundo de alegria por
achar que a luz voltou.

IV
Nessa noite de Domingo
os raios e o som da chuva me
trazem em um estalo
nostalgias de noites que não vivi...
(como estará a Camerino
a Gomes Freire e a Lavradio a
essa hora?)

V
Logo depois do clarão do relâmpago
o telefone toca.

Conversamos.

Ao desligarmos o telefone a
luz volta no mesmo instante.
O telefonema dela veio com a luz e
me trouxe a luz de volta:
a voz da Fernanda me salvando
de um intervalo escuro.

sábado, 6 de março de 2010

Como Devia Estar


Cheguei ao limite da vida comum.
Não quero mais ter a ver com
nada dessa rotina:
trabalhar trabalhar trabalhar
estudar estudar estudar
se aposentar para jogar damas na
praça esperando o AVC fulminante.

Como é que pode alguém
-quase na metade da vida-
ganhar esse salário medíocre e
ainda encontrar tempo pra escrever
essa poesia que não serve de nada?

Deveria mesmo era ter sido
um cientista ganhador do Nobel
um barão das drogas colombiano
um artilheiro da Copa do Mundo.

Mas que nada!
Queria mesmo era a vida de cinema:
cansado e ferido
-depois de ter sozinho eliminado
da face da terra dúzias de vilões-
ter as pessoas olhando aquelas
Tv’s enormes das Casas Bahia
exibindo todas ao mesmo tempo
eu e a Zhang Ziyi num último beijo
antes de subirem os letreiros.

Os Dias Sem


Ah
nem sou eu que penso nela!
São os filmes que sentem saudades
dos seus olhos
os livros que sentem falta das
suas mãos
as gavetas sem o cheiro
das suas roupas.

E este espelho aqui
que ainda espera ela pintar os olhos?
Os meus defeitos ansiando o
freio das suas críticas
o silêncio do quarto querendo se quebrar
novamente com o contínuo da sua fala.

Caralho!
Percebi...
Sou eu que ainda penso nela...

Subversão


Eu
este paradoxo encarnado:
às vezes Dalai Lama
às vezes Don Juan
ora lucidez
ora poesia
melancolia e carnaval.

Só que agora
depois que ela passou por aqui
já não sei mais voltar a ter
essas dicotomias.
Ela assoprou o castelo de cartas
bagunçou o coreto
embaralhou o quebra-cabeças...

Agora tudo é agonia.
Ela me fez desaprender a ser
o que eu era antes.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Consistência da Solidão



Durante a chuva
os balanços do parquinho no Jacaré
pendem imóveis
vazios.
Nesta manhã de chumbo
a caminho da asfixia do trabalho
meus olhos tristes são
as crianças em dia de sol
que ali não estão.

Gamboa



No amontoado de casas da Gamboa
tudo é ruína:
as ruas cheias e imundas
as gordas putas de 20 reais nas
portas dos hotéis de 20 reais
vira-latas magros e bares de sarjeta...
Tudo é cinza e concreto desgastado
nas paredes velhas da Gamboa
só uma pontinha de mar no
fim de uma rua destoa de tudo.
Só uma pontinha de mar...

Imposição das Mãos



Tudo tão pequenininho:
a enseada de Botafogo
(de noite é como meu quarto:
só o vácuo de um breu)
a velocidade dos faróis rasgando o Aterro
as luzes do Morro da Urca parecendo
as únicas estrelas que teimaram acender.
Tudo cabendo aqui na palma da mão.
E essa mão no vidro do ônibus
quase captura o horizonte inteiro
quase torna a noite do mundo palpável:
a mão de dedos estendidos para
instilar o amor e saudade no
ficar para trás da paisagem diminuta.