quando este incêndio terminar,
venha aqui antes dos bombeiros,
e não atente ao meu corpo devastado pelo fogo.
procura pela casa ainda em brasa, uma blusa,
uma carta, um souvenir qualquer de mim.
deixa ali meu corpo aniquilado,
não se preocupe com a incandescência
revelando em minha carne calcinada as
marcas das tuas facas, dos teus dentes,
das unhas coloridas, dos teus beijos a queima roupa.
pega algum objeto do meu quarto, leva contigo:
ele será o ovo da fênix,
o meu eu triunfante sobre as chamas.
carrega-o pela tua história mesmo que amanhã
de manhã um novo amor despenteie teus cabelos.
vá embora sabendo que é teu o que possuí:
o que sempre foi o melhor de mim.
***
lembra de mim como alguém que amou te
olhar dentro dos teus vestidos coloridos,
lembra de mim como alguém que criava
mapas do tesouro no teu corpo e,
me agarrando as tuas costas,
sempre marcava com um xis a soberba
geografia da tua nuca descoberta.
"Como se tudo que eu possuísse tivesse me deixado, e como se nada pudesse ser o bastante caso retornasse..." (Kafka)
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
sábado, 21 de junho de 2014
dizer não ao
cotidiano, querer os dias do caixeiro viajante.
a pele incorruptível das
mulheres da gávea.
aquele rosto eurocêntrico
de 20 anos atrás
cindindo, hoje, a
impiedade das avenidas.
o rosto, outro rosto,
que envelhecerá comigo
através dos
tempos burgueses.
a noite da zona sul, a
neblina que não existe
dentre os prédios, invadindo
as lanchonetes.
a tua voz grave me
encorajando os pulsos cortados,
ou os faróis de
santa rosa anoitecendo outro mundo.
a lapa (ah a rua da
lapa), a cerveja, a urina
(fridas kahlos dentro
da urina).
o encontro súbito, a
solidão
do televisor.
os cartazes dos bailes
funk em madureira convidando
aos velhos crimes
embebidos em álcool e vagina.
acordar cedo, a caneca
de café
com leite,
um artigo sobre
fellini no incansável monitor.
estar em cada gesto de
mão
que acaricia,
de lado a lado, esta
lua rubra.
derramar absurdos sobre
a cidade me faria feliz.
as pastelarias
encardidas, as manhãs mansas de pequim,
o toque dos dedos e
dos olhos da mulher chinesa.
tão perto,
mas não
aqui: na distância só posso te intuir:
nas músicas
que passaram, todas as outras que virão.
me perdendo em fábricas
noturnas, casas abandonadas,
prédios de
um século,
quintais praieiros, e na geografia
errante dos teus braços.
bares de esquina,
igrejas escuras sob a manhã.
a cidade a noite: um
seurat de neon e led.
na cidade nada nos
choca, nem a violência e
nem o amor: na cidade
os dois se confundem.
as entranhas do subúrbio, vísceras
do concreto mofado.
tu caminha, a pele
limpa nestas calçadas sujas,
o teu cabelo num
movimento pendular trazem,
como num enigma zen, saudades
do que não
se viveu.
mini shorts, minissaias,
a brisa evola o cheiro
de sexo perfumado por
urina e lycra.
helenas sob a luz de
necrotério
do metrô,
ou ainda sob o sol high definition de janeiro.
o anjo de klee, com
sua cabeça
torcida, bate suas asas
sobre estes dias do
longe, e sente tristeza.
a meia luz quando
anoitece, o odor lento
do piso de madeira, o
tic tac do relógio incansável,
os quartos do
apartamento na memória infantil.
as luzes de poeira e
xenon de dentro
do teu carro pelas
noites de sonho
(laranjeiras pulsa
ainda que adormecendo).
blusa rasgada, barba
por fazer, no bolso
alguns trocados, e teus
convites querendo me
fazer bordar uma lágrima.
a vida se encurta em
tempo e espaço, e eu
sou o grande charlatão, o
amante,
o assassino de mim e
do outro:
e este é um
poema para quando não mais houver.
segunda-feira, 16 de junho de 2014
inventário de ausências (ou das anticoisas que tu deixastes)
1) as fotografias que não dissolverão nunca
a tua imagem do tempo destes olhos
2) um ou outro fio de cabelo teu pelos lençóis,
que encontro como se encontrasse uma alegria
3) os brincos sobre a cômoda, e dentro
deles um desejo de que, como quem não
quer nada, tu os venha buscar
4) o vestígio da palma da tua mão na porta
do armário: o índice dos teus dedos frágeis
5) teu cheiro habitando na blusa que coloquei ao
lado do travesseiro e que, durante a sonolência,
quase faz parecer que estás aqui
6) um barulhinho de saudade naufragando
tarde adentro (pode escutá-lo?)
7) a fantasmática do teu corpo nu na varanda: a
miragem da vênus de botticelli fumando um cigarro
8) e um enigma: este corpo grande e musculoso
curvado sob o peso deste pequenino sentimento
oberon e titânia
fincou os pés no verão e fez
da estação o território da tua presença:
na cor de sangue do fim de domingo
escorrendo sobre os dois irmãos,
nas horas de literatura (a filosofia do amor):
no grande e no pequeno tudo és tu.
tua presença és isto ainda:
teu cheiro misturado ao óleo diesel
das ruas claras, teu cheiro naufragando
entre uma onda e outra dos lençóis recém lavados:
no infinito e no ínfimo tu estás.
e nestas ilhas de espera, dentro do
intervalo que se abre quando não estás ,
fugir das horas que insistem em gravitar
a volta do desejo do teu umbigo:
qual o afazer mais digno do que
levitar o pó destes livros,
sentir saudades tarde adentro e,
ao anoitecer, me abrigar de ti e esse teu
estranho vício de atear fogo em satélites?
eu, que nas noites acesas de janeiro,
te habitei no escuro, e não soube mais voltar:
pois que tuas clavículas são a coisa mais bonita da praia,
tuas omoplatas a coisa mais bonita da festa,
mas é sobretudo o teu rosto que me acalma, como o
sol acalma a varanda numa manhã sem trabalho.
por hora cansei desta humanidade.
ponho-me aqui, este cão a destilar a
alma das ruas concretas, a contar as
crateras das luas foscas de fumaça.
devo te confessar encontrar prazer na
solidão do uivo, no farejar insistente
das simetrias do meio-fio:
pode tu abarcar tanto abandono?
não te ofenderá a visão desta boca
cheia de dentes de onde pende
a língua desavergonhada?
não quero também as mãos: as patas terão
a impossibilidade de manusear mais estragos.
já me irrita a fala, a angústia de homem que,
em mim, sempre brotou fortemente:
quero a alegria vazia e pendular, sem
filosofias, de um simplório abanar de rabo.
só isso e um raro afago por dentre as orelhas.
mas me diga: tu pode perdoar, e abrigar em ti,
as pulgas que carrego pela vida?
e desviar de automóveis que vem e vão,
e nunca, ainda que sobreviva até a velhice,
entender a causalidade da chuva.
sentir o cio como um delírio ancestral.
mas caberá ainda o amor neste corpo peludo?
virá de uma esquina, de uma praça, de
sob as marquises mofadas e úmidas?
será grande ou pequeno, dócil ou feroz, o amor?
da existência de homem só guardarei
isso a que chamam de amor: a lembrança
do teu riso derrubando os livros,
a portaria do prédio na névoa do leblon,
o mísero osso que me jogaste, furiosamente,
através da sépia contraluz de tua janela.
desce o bordado lentamente,
cada fio, fiapo, dobra e poeira,
a trama microscópica do tecido ondula.
aos poucos,
como rosas que se abrem, via-lácteas explodindo,
cada mancha infinitesimal da tua carne faz aparição.
ainda cada sombra sobre os mínimos volumes musculares:
nos poros posso ver a ascensão dos pelos,
e neles enxergar a exalação lenta dos teus cheiros.
o instante me olha tão nitidamente que quase decifro,
no padrão da tua pele, o rosto dos teus antepassados.
mas voltar a si é voltar ao todo:
tuas costas nuas emergindo do casaco descendente,
violentamente afogando a gávea inteira,
na realidade incontornável das tuas omoplatas.
quando ela foi embora, catou laboriosamente todas as roupas,
os badulaques inacessíveis, os fios de cabelo espalhados pelo chão. quando ela
foi embora levou quase tudo, menos as peças íntimas, as camisolas: essas ela
deixou submersas na gaveta, a última de cima pra baixo, pois havia decidido, já
sem nenhuma mágoa, que de agora em diante dormiria o resto da vida
silenciosamente nua. isso era símbolo e prenúncio de uma mudança de existir,
uma troca de pele, um desancorar-se.
ainda não chovia aquela manhã, ainda não. iria chover mais tarde, pois
ela acordou agarrada na certeza de que não havia felicidade ali, e isso desenhou
a promessa de algumas nuvens no céu daquele quarto. e ele, triste e estranho
como era toda vida, ficou ali, imóvel: uma relíquia de alguma civilização
antiga recoberta de pó. tropeçando nos livros, desrespeitado pelas gavetas, o
cômodo azul escuro: um cheiro infinito, a
possibilidade da mudez, e da criação delicada de várias espécies novas de
solidão.
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