sábado, 9 de agosto de 2008

Canis Elegia



Sempre me achei de uma frieza estranha por nunca ter chorado em ocasiões de luto. Quando soube da morte do meu avô, da minha avó, me enchi de pesar, mas não consegui derrubar uma lágrima sequer. Sempre me cerquei de muita filosofia, sempre tomei essa ciência que, como dizia Montaigne serve “para aprender a morrer”, como uma verdade absoluta, achava que talvez essa minha circunspeção adviesse desse entendimento maior sobre os mecanismos da vida. Mas hoje minha cachorrinha, a Nala, morreu... e eu chorei feito criança. Um choro secreto, um choro de quarto trancado. Foi aí que eu descobri porque com ela foi diferente: dela eu não soube apenas, eu estava lá com ela no momento da injeção letal. Eu a levei de casa pela manhã sem saber que ela não voltava, e eu a enterrei, ela que amei, eu a enterrei reduzida apenas a uma massa de carne peluda e morta. E se agora choro não é porque me lembro dela, como não chorei por apenas lembrar dos meus avós... eu choro porque ela deixou um último olhar em mim, como se suas íris castanhas reverberassem nas profundezas do meu íntimo: “Luis, eu me vou, mas não posso te deixar sair ileso dessa!”.
Só que ela não devia ter feito isso... é tão pesado carregar os olhos dela...
Em alguns momentos, por alguns lapsos de memória, ou por costume, ou por afetividade, eu acho que vou encontrá-la ali, acima dos degraus, com a cabeça acima do cercado, com as orelhas murchas e abaixadas pela felicidade de me ver... só que o que encontro é um terraço vazio, onde até as fezes que ainda restaram dela me estilhaçam um pouco mais.
O resto de comida do meu prato agora vai p’ro lixo, enquanto reflito que a ausência do barulho das suas patas é o indício que ela não mais existe. Eu ouço fogos de artifício, mas não ouço os latidos de resposta, e nesse momento eu sei que o silêncio dela agora é o silêncio em mim, é o silêncio do meu quarto, é o silêncio da casa toda.

Rio de Janeiro, 09 de Agosto de 2008

2 comentários:

Mariana Tiné disse...

Sabe...
Temos algo em comum de as vezes a melancolia ser nossa melhor aliada, e hoje estamos com dores distintas, não sei o que te falar que poderia confortar sua dor mas, saiba que estou ao seu lado.. Mesmo que não acalme seu coração...

Isabela disse...

Que texto lindo vc escreveu sobre sua cachorrinha, chorei lendo. Como eu te disse, chore, chore muito. Coloque para fora o que está te arrebentando por dentro. Chore por um ser que amou você incondicionalmente, ser pedir nada em troca, sem interesse.