quinta-feira, 19 de março de 2009

Dia Feriado


1 - escrever um poema
2 -olhar a chuva
3 -esperar a nuvem se desfazer
4 -sentir saudades
5 -só ouvir música
6 -cochilar
7 -sentir saudades
8 -ver um filme
9 - ler um livro
10 - sentir saudades

segunda-feira, 16 de março de 2009

Gestos de Uma Composição


Toalha enrolada na cabeça
touca que enlaça a cabeleira
e te deixa o rosto sem moldura.

Mas numa só puxada
desabraça a toalha os seus cabelos
e eles chovem molhados
na lisura da sua nuca
no volume dos seus ombros.

quarta-feira, 11 de março de 2009

A Metamorfose


A culpa pelo assassinato
de uma barata
vibra em meus recônditos.
Cada vassourada
nenhum pensamento
apenas vontade irracional
de reduzi-la a gosma inerte.
Quantas mortes em minhas mãos!
quantos mosquitos e lacraias...

Era uma barata
que só
respirava
comia
trepava

Se por nojo e medo mereceu
o trespassamento pelas piaçavas
que mereço eu então
este inseticida
que só
respira
come
trepa?

domingo, 8 de março de 2009

Canções do Mar


I

As ondas incansáveis
quebrando e quebrando
ferozes
o barulho do mar...

O barulho do mar
é uma outra espécie de silêncio.


II

O mar
o mar noturno
batendo e batendo
inescrutável abismo gelado
uma coisa só com o céu escuro
uma coisa só...

A morte
imensa e espessa
a morte
deve ser como esse mar anoitecido

sábado, 7 de março de 2009

Na Pedra


Casinhas medievais na
beira do mangue
o cheiro de maresia
respirado por cada poro
e pela primeira vez
o pastel de siri.

Nosso caminho:
o cais de meninos pescadores
nas ruazinhas desertas
igrejinha e os
balanços de pneu sob
as árvores sob a sombra
sobre o chão folhado.

Barcos adormecidos na areia
me convidam a dormir
dentro da brisa e da calma
do sorriso dela que
convida a beleza do mundo.

Tudo é de nós dois
nesse lugar onde
todos os dias
parecem tardes de domingo.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Relicàrio


Tudo que sei de mais bonito
vem da solidão
vem do silêncio.
Percebi o porque do gosto
pelas fotografias antigas
de reler velhas cartas:
são ainda pessoas ali
inertes e caladas
preenchendo com o que já não mais é.

Foi o que amei e que se deixou aqui...

Descobri nas imagens e palavras do passado
que a verdade íntima do mundo
se contempla no tempo das saudades.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Em Todas as Coisas


Focalizo a janela do ônibus espelhando nossos rostos translúcidos,
e ao flagrá-la me sorrindo através do reflexo,
diante de mim a vejo ir sobrepondo seu rosto
na paisagem que corre por trás:
então os carros e os faróis me encaram com seus olhos,
a calçada e as portas das lojas me sorriem com seus lábios...
enxergar todas as coisas que ficam e que passam assim,
cristalizadas pelas feições dela,
é torná-la absoluta,
é reafirmar esse sentimento que,
desde que ela apareceu por aqui,
a coroou de onipresença nos instantes do meu dia.