domingo, 10 de maio de 2009

O Rei dos Animais


O homem velho na Estrada
do Mato Alto será
que conhece o Centro?
Será que ainda se lembra dele?
Desse outro lugar que
pulsa em outro ritmo
que fervilha outras vidas
(que as vezes nem parece vida...).

O homem velho na Estrada
do Mato Alto
humilde
não conheceu o mundo e
nem vai conhecer novas pessoas
porque o homem velho nasceu
e vai morrer no
mesmo lugar.

Como pode o homem velho
viver tudo só
nesse pequenino universo?
Vida mínima de estrada e
de carroça
sem saber dos computadores e
dos prédios e dos carros e
das meninas e das bebidas nas
baladas da realidade distante.

Será feliz assim o homem velho?
sempre pobre sempre humilde
no mundo quase sem estar no
mundo
vivendo sem estar em outros instantes.

E depois de morrer terá o
homem velho alguma fotografia
envelhecida e mofada na sua
mesa ou na sua parede ou
será que depois que se for nem isso
nem lembrança?

Porque existe então o homem velho?
Onde existirá agora além daqui
inscrito no corpo deste poema?

quinta-feira, 7 de maio de 2009

O Belo de Caeiro


Só os insensíveis não julgam pelas aparências.
-Oscar Wilde
Quantos nunca me entenderam por
preferir a aparência a
funcionalidade das coisas?
quantos me acharam ignóbil por
dizer que preferiria uma
mulher burra e bonita que
uma feia e inteligente?
Cegos para a verdade do mundo
aqueles que me condenaram por
ser um esteta.

Porque personalidade pensamentos e
sentimentos não passam de
especulação.
Prefiro a pele das coisas porque
a verdade está no que eu vejo.
O que existe concretamente é
o corpo e a superfície das coisas.
E é isso que me atinge e
é isso que eu exalto.
O resto é pura metafísica.

Os animais e as plantas são
superiores a nós porque
os animais e as plantas
não sabem do que não vêem.
Os animais e as plantas não
vêem uma personalidade ou
um sentimento ou
um pensamento.
Por isso eles são puros e bons.

O homem quase nunca é puro e bom.
Porque o homem insiste hipocritamente em
dar mais valor a
personalidade ou
a um sentimento ou
a um pensamento.

O homem só é puro e bom
como quando admira as estrelas e
as flores por sua beleza.
Mas ele esquece que as
estrelas e as flores são
apenas estrelas e flores.
As estrelas e as flores não tem
personalidade ou sentimentos ou
pensamentos.
As estrelas e as flores não
servem pra nada.
Mas as estrelas e as flores são
muito caras e muito
admiradas pelos homens só
pelo seu exterior.
Só por serem belas e
só por isso e nada mais.

Os homens deveriam ter
assim com tudo.
Porque isso sim é divino
porque isso é a essência última
do existir:
louvar o que é por fora porque
o que há por dentro não há.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Fogo



Na madrugada de Domingo, dentre todas aquelas escrotices costumeiras da televisão, algo veio p’ra mim atingindo em cheio no ponto cego da minha morosa estabilidade emocional: no filme pornográfico a loura tem os cabelos dela, e reparando direito... a bunda é dela também. Mas nem pensei em ficar excitado, fiz foi embolar alguma coisa no peito, acho que foram uns enormes tufos de saudade. Apaguei tudo o que ainda era luz na casa e fui p’ra cama esculpi-la em inefáveis pensamentos, pintar a madrugada em tons azuis de alguma tarde ilusiva, alguma tarde que não tivemos. Mas não era ainda dono do sono e quis me embalar no rádio de pilha, e a música que tocava na hora a trouxe com tamanho ímpeto implosivo, que para meu corpo não combustionar sobre o colchão, tive que refazer meus planos. Voltei à sala, reacendi a luz, e por conta das mesmas baboseiras intermináveis na televisão, tive de escrever.
Hoje em dia as saudades dela andam tão raras, que quando chegam, chegam fulminantes. Antes elas me atingiam um pouquinho a cada dia, agora chegam a se acumular durante até uma semana, só para fazerem derradeiros e destrutivos ataques surpresa. Elas espreitam nas esquinas do meu sossego até que surja algum gatilho para dispará-las: uma canção no rádio, um carro igual ao dela, o ônibus que passa em sua rua, a loura do filme pornô...
Ela é a prática da Teoria do Caos, invadindo a beleza do dia, desordenando e enlouquecendo as pequenas coisas do Destino. E agora que ela bateu tão forte mais uma vez, como vou conseguir dormir com essa sensação de há tempos não estar mais aqui? Porque na lembrança daquela noite abafada, quando fui homem e enfrentei o mar, eu me perdi. Porque no quarto dela tão pequeno eu enfrentei o seu corpo branco e imenso, e me perdi de tantos caminhos cruciais...
Desligo a TV, porque já não agüento mais tanta merda no monitor e nessa folha de papel. Hoje não vou para a cama, vou ficando escorrido pelo sofá mesmo, me decompondo, sob as cobertas com medo dos barulhos que vem da cozinha. Amanhã preciso lembrar de fazer existir uma garrafa de vinho na geladeira p’ra servir de muletas em momentos como esse. Mas e daí se não há vinho? Recriá-la no sono sempre me embriaga de uma forma ou de outra...
Não quero nem saber do radinho e seus locutores insones, escrever me acalmou um pouco, e a última coisa que eu preciso agora é de mais outra música traiçoeira. E até adormecer realmente vou lembrando dela assim meio triste, como o fogo na cidade, que na saudade da floresta, incendeia papel vegetal.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Genius Locci


Quando vem me visitar a solidão
eu me dou ao pesado retiro do quarto-abrigo.
Nenhum som se permite existir,
a não ser os ruídos intangíveis da minha existência corpórea.
O ar ganha densidade física no cheiro de madeira dos móveis,
e a poeira dos livros me fala do amarelecer das palavras,
e da devoração inexorável do tempo...
O meu quarto ganha vida com ares de fogo e gelo:
é uma entidade criada em mim e de mim,
e que me guarda em meus segredos,
e onde assombram, livres de seus grilhões,
esses frágeis fantasmas impressionistas,
todos tecidos na minha delicada tela de veludo azul escuro...
essa tela que preenche tudo que é solidão,
tudo o que me abraça e sussurra nesse piccolo mondo melancólico,
que se abriga e se embate,
contra a concretude dessas quatro paredes cor de areia.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Punctum


Dia de chuva
tudo cinza:
paisagem desejo.
Só um ponto claro,
na paisagem,
no desejo:
a pele branca
da coxa
pelo rasgo da calça.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Pequeno Catálogo da Infância


Comandos em ação; He-man;
comer meleca; gongolos no
quintal da minha avó; batatas fritas
e carnaval na casa dela também;
Emanuele (a do colégio);
Emanuelle (a do filme erótico
do canal 7); quadrinhos do Conan;
futebol no campinho; futebol de
botão; mamadeira até os oito;
Ziraldo; experiências metafísicas
com um Phantom System; Meu
Primeiro Amor e a Anna Chlumsky;
Ultraman; o apocalipse nas
chineladas da minha mãe; medo do
escuro (isso até hoje...)

quarta-feira, 8 de abril de 2009

A Uma Passante (apud Baudelaire)


O trânsito absurdo
a multidão de autômatos
na Primeiro de Março
some
enquanto ela passa.

Tudo petrifica
só o vento se assanha
nos cabelos dela
que caminha firme
como se soubesse que
não há mais nada
além dela
pelas ruas cidade
nas retinas do poeta.