quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Vontade do Mundo


Tento ler Casares mas não posso ficar
alheio as ruas noturnas do Centro.
Fecho o livro.
Não consigo passar ileso a estes
lugares que sempre trazem tanto dessa
nostalgia sem fundo e nem origem.

As crianças jogam bola nas
ruelas sem saída e as pessoas assistem
suas novelas nos casarios decadentes.
Os bares de esquina me secretam noites de boêmia
com suas luzes pálidas e sambas antigos.

Me incomoda também sentir na nuca a
pulsão de beleza com que me golpeia
a menina do banco de trás.
E ela desce no Estácio.
Eu já sabia.
Tão linda assim só poderia descer
no Estácio.

E é como se eu já tivesse vivido aquilo tudo
como se cada coisa fosse um pedaço
meu que vai ficando pra trás e me esvaziando
cada vez mais do pouco sossego.

Tudo gravita numa saudade estranha de
pulsar em cada molécula de cada coisa
que existe entre a Rua da Lapa e a Dias da Cruz.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

9 de Agosto


Hoje
depois de um ano exato que
a Nala morreu eu ainda carrego
no meu olhar aquele último olhar dela
antes do sacrifício na mesa do veterinário.

Era um olhar pleno de tristeza
como nunca vi.

- Ela sabia o que iria acontecer e deve
naquele momento
já ter sentido saudades... -
disse meu pai com sua sabedoria
de homem simples.

Percebi que aquele último olhar foi
ela me entregando as saudades
que não poderia levar para cova.

Fiquei com a saudade dela presa a mim
ao descobrir que o último olhar
de quem morre é o ato por onde toda
saudade escapa para continuar pelo
mundo habitando outras vidas.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Carne e Espírito


Enquanto a senhora do meu
lado faz o sinal da cruz ao passar
em frente a igreja
eu me pego vidrado na bunda da loira
que passa na calçada...

E quem dirá que eu e a senhora
não fazemos a mesma coisa?

Afinal o desejo também é acreditar
em algo que não se alcança
desejar alguma coisa também é
a seu modo
professar uma genuína forma de fé.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

A Saudade


é amarela e
tem gosto de Dipirona.

Quinhão


Pela manhã os desabrigados
da Buenos Aires guardando seus
lençóis imundos em caixas de
televisão de LCD.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

A Quebra do Juramento dos Horácios


“Ô crianças, isso é só o fim, isso é só o fim”
-Marcelo Nova

Todo dia o mesmo escovar de
dentes a mesma cara no espelho
que nem vejo entorpecido de
tanto sono e de tanto tédio.

Não esperava ver meus amigos assim
todos quietos com suas namoradas
todos velhos já aos vinte e pouco
(na verdade sou eu que os vejo assim).

Antes estaríamos a caminho da Lapa
rindo e bebendo e contando
histórias e criando expectativas...
agora paira um silêncio no carro
enquanto eu no banco de trás
me flagro na melancolia de enumerar
as características da arte neoclássica.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Duas Tristezas


O silêncio é um sintoma da tristeza.
Eu sou o rei melancólico,
por isso assim entronizado neste castelo de silêncios.
E apesar do silêncio dela ser de uma essência diferente da minha,
a postura melancólica que a veste é tão igual,
que como um Narciso calado,
eu me apaixonei pelo seu rosto cabisbaixo,
tombado com todo o peso do mundo,
sobre o delicado da palma da mão.

Enquanto os outros se apaixonam por sorrisos,
pela tal da “alegria contagiante”,
eu navego no contrário da maré,
vidro no sem graça ao sorrir,
no encolhimento do corpo dela,
no seu ensimesmar soturno.
E no fim das contas, é até bom que seja assim,
esse algo meio platônico:
Afinal, acho que dois tristes enamorados não poderiam dar certo...
Imaginem só que trágico:
a minha melancolia mais a dela,
uma melancolia ao quadrado,
acabando por fazer nossos filhos já nascerem tuberculosos!