domingo, 26 de dezembro de 2010

Locus


Um velho enquadrado no escuro da
janela do seu apartamento.
Em um bar de esquina um chope gelado
num dia quente de chuva.
Um rapaz gay correndo e brincando
me arranca um sorriso.
O instante do beijo debaixo
de um guarda-chuva azul (a única
cor azul no dia).
A mulher que espera na porta do
shopping me fala mais de saudade
que de anseio.

Imagens e afetos que
no redemoinho das horas suburbanas
nos diz:
prosaico.
Mas o olho do poeta contradiz
o cotidiano absoluto:
é no cerne desses fenômenos que
a poesia existe violentamente.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Imagens Sacras


I
A sexualidade trágica de Schiele me domina.
Schopenhauer na cama ejaculando
pessimismos no lençol.
As flores murchas do criado-mudo
sussurrando quartos de motel.
Antigos abismos me propondo absurdos
no primeiro pensamento da manhã.
O arroz da panela se movendo como os
vermes do saco de lixo que esqueci de pôr fora.
A paz estilhaçada nas ruas amanhecidas
do Engenho de Dentro.
O desejo fazendo circunvoluções nos
pontos de ônibus.
Lâminas faíscam nos tetos dos carros
enquanto duas estudantes lésbicas e lindas
se beijam no último banco
fazendo Artaud sentado ao meu lado sorrir.
Ormud e Ahriman se digladiando no
céu de chumdo do Riachuelo
enquanto meninos empoeirados escrevem com mijo
o nome de Rimbaud sobre muros grafitados.

II
E numa noite submersa ela me ligou
chapada de álcool e de Blake e
fui encontrá-la sugando águas dos olhos e
de um chafariz.
Ela me propôs o teste de Rorscharch com
dez módices usados
enquanto a Sofia Copolla nos filmava
(mesmo eu dizendo que preferia o Murnau).
Quando desmontaram o set de filmagem eu estava mesmo
era no meu próprio quarto onde anjos depenados
giravam cuspindo rosas e febres
e na penumbra eu vi que nenhum deles
tinha o rosto dela.

Ideologia do Amor


“Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum trocado pra dar garantia”
-Cazuza/ Frejat

Deveriam pagar salário aos
que se amam de verdade
(complementado com um bônus
para o homem comprar flores
para a mulher comprar lingerie).

Ter ouvido ela me dizer isso sorrindo
(se referindo a nós dois)
inundou o instante de tal beleza que
abraçado a ela
acreditei que repousaria no seu corpo
eternamente sem esperar pagamento:
ela nos alimentaria
e nos vestiria
de todo esse amor que ela planta
nas pequenas coisas do dia a dia.

Recorte da Rocinha


Todos eles já homens (mesmo
os que só devem ter quinze)
mas carregando suas armas
(suas pistolas prateadas seus fuzis negros)
parecem crianças que esqueceram de crescer
prontas para jogar seus jogos hobbesianos.

Movem-se como deuses da morte
(como são todos os deuses da
história do homem) com seus olhos
injetados de paranóia e fúria.
Atocaiados nos becos
afrontando a neblina branca que
desce o Corcovado
expõem seus corpos negros.
Gregos.

Descamisados.

Influxo da Manhã


A luz vagarosa perfura
as cortinas
persegue os últimos vestígios da noite
que ainda se escondem nas frestas
da arquitetura
embaixo dos carros
debaixo da pálpebras pesadas dos
que acordam
(mesmo sem despertar).
Amanhece mais um dia e
o primeiro pensamento que
me assalta é:
porque amanhece?

Penso se a manhã de outros países
(que não amanhece
nesse momento) será
a mesma que essa...
será igual para uma estudante chinesa?
para um caçador Massai?
para um operário dinamarquês?
Deles
no entanto
eu não sei
não poderei mesmo saber.
Mas sei das manhãs da senhora que
todo dia
lava seu quintal no Engenho Novo
sei das manhãs da mulher que
todo dia
fuma numa varanda da Lagoa.
Sei da fila de estudantes no ponto
de ônibus em Laranjeiras
das pernas de creme da estudante
que entre as meias e a saia
são da cor lenta da manhã.

E daqui desse amanhecer no Jardim Botânico
até a noite no (talvez no) Méier
tudo será como é desde o início:
a duração de um embate.
Mas quando o crepúsculo se abater novamente
calando a velocidade do dia
enquanto todos sentem na pele a
proximidade do escuro e do sono
(quando não houver mais nenhum
resquício da manhã na hora das coisas)
será o momento de acordar para
os vampiros as putas e os poetas:
pois apenas eles
com os olhos marejados de tanta madrugada
sabem como comungar com
a tessitura íntima da noite.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Memórias para um Café da Manhã


I
Abro a janela do quarto de
estudos pela manhã
e a torrente de sons urbanos
invade o apartamento.

Começo a escrever esse poema
apoiado num “Obras Completas
De Michelangelo” .
E nessa manhã insípida eu penso
que
poucos homens houveram no mundo
tão fortes
tão apaixonados
tão lindos
quanto Michelangelo.

II
Meus pensamentos não param.
Todo o tempo essa incansável máquina
bombeando imagens e afetos e libidos
(as vezes gerando um mal-estar
as vezes um pau duro).

Quando acordo de manhã os pensamentos
vêm em profusão
desconexos
todas as belezas
todas as sujeiras
são 15 minutos de pensamentos acumulados
de uma noite inteira em que não pensei
porque dormia.

III
O dia de domingo é lindo.
Lá na rua eu sei que as famílias
estão sob o sol
os cachorrinhos passeiam com seus donos
as crianças correm em seus triciclos.

E eu aqui
no alto do sexto andar
acorrentado a esse silêncio
preso entre os dentes do Tempo
(que não me mastiga pois congelado)
para além do amarelo do dia
lanço pela janela meu olhar mais sombrio:
sou um nosferatu melancólico que
sente saudades dos séculos em
em que podia andar perdido
por baixo da pele da noite.

A Câmara Escura


I
A chuva cai pelas ruas nesta
tarde de sábado que nunca
mais se repetirá.
Um salão de beleza
um bar com sinuca
a mocinha de amarelo
a menina do pastor alemão
(vê-las agora jovens demais se
assemelha a uma idéia de dor)
tudo dentro da chuva...

Olhei as velhas ruas de Cascadura e
quis seguir por elas novamente
vestindo minhas melhores roupas
usando meu melhor perfume
para encontrar os amigos de uma vida
para encontrar as meninas de uma noite.

Mas estes são desejos de dias que
correm numa realidade alternativa
e quem os pode viver é só
o eu da possibilidade
pois esta corporalidade aqui
-a que sente este poema chegar-
é um reverbero de memória dentro de
um lugar de desmemoria:
é como o petrificado instante das
fotografias esquecidas numa caixa.

II
As fotografias numa caixa
onde ela nem me olha mais
mas eu no entanto
ainda posso vê-la:
um biquíni azul numa praia
num dia de verão em 2006
que como qualquer outro dia
nunca será igual a nenhum dos
que existirão.

III
Ela se pintou quando quis
que eu a fotografasse.
Ela nunca se pintava.
Ela se olhou no espelho da clínica.
Se olhou e ajeitou os cabelos.

A fotografia resistirá ainda
mas o centro do Rio
a Pavuna
o metrô de Maria da Graça
já nem se lembram mais
daquele fim de tarde.