domingo, 11 de março de 2012

Love Is With Your Brother


Ia pagar o pão e o leite preocupado
com a falta de grana mas
a caixa nova do supermercado tem o rosto
dela e deixei na hora de pensar em dinheiro.

Vi ali a Tristessa chapada e perdida
a Tristessa de Kerouac
a minha Tristessa
encarnada em uma caixa de supermercado.

Lembrei do Estácio que era a
nossa Cidade do México chovendo nos
letreiros dos táxis
enquanto ela doidona
chorava bebidas alcólicas
e eu
- triste toda a vida -
embriagava na visão violenta das suas ancas.

Voltei pra casa com o
pão e o leite comprados mas também
havia uma outra sacola com os indícios
dos seus ciúmes e dos seus desejos
o peso indescritível da presença do seu rosto:
mas estes eu tive que roubar do supermercado
pois hoje eu não tenho realmente
- como um dia tive –
como pagá-los.

Notícias do Sul


Soube que ela voltou a andar
por aquele bar
aquele antigo bar que já foi nosso.
Algumas pessoas a vêem sempre por lá
com uma namorada nova e
vem me avisar
e usam o telefone para me dizer
que a viram.

Aqueles foram dias bonitos eu sei
mas eles há muito guardei na
caixinha abarrotada das coisas amadas
que não partem.
Por que então as pessoas insistem em
achar que eu preciso saber?
Por que elas
tão ingenuamente
despedaçam um dia inteiro?

Dia de Reis



Lembro e não lembro que
já fui criança.
Era quando minha avó dava de beber
aos foliões de Reis e minha mãe dizia que
eles raptavam as criancinhas.
Mas eu não tinha medo:
a rua
naqueles longínquos janeiros
quando eles passavam com sua banda
era uma alegria e um pandemônio.
Eu corria pro terraço e os via com a
ternura que ainda os vejo hoje pelas janelas de adulto.

Mãe
hoje te digo:
não eram os foliões do Dia de Reis não!
Conforme passam os anos
é a própria vida que nos rouba as criancinhas.

A Queda


Numa manhã de chuva me apaixonei
profundamente por uma personagem em
um filme do Gus Van Sant.
Mas minha mulher chegou e gritou comigo por
não ter pagado as contas e eu
saí para quitar o que podia.
A chuva na rua era triste do jeito que
eu gostava e me perguntava
como uma poeta (capaz de se apaixonar
lindamente por um personagem de cinema)
se tornou esse medíocre covarde cujo
pensamento sobre as compras do
mês andam carcomendo
vorazmente
a alegria da poesia.

Daemonium Meridianum


Todo dia
ao meio dia
um demônio vem tentar me beijar.
Mas eu sou um bandido pervertido e violento e
ele se espanta com o quanto eu
posso ser sujo e ressentido.
Ele usa um vestido de brilho escuro e
com suas mãos de veludo
quer me estrangular a vida inteira.

Ele tem o meu rosto.

Ele sou eu
absolutamente
no espelho das horas.

26 de Janeiro


Este poema nada mais é que
um amontoado de letras (des)ordenadas
numa folha de papel.
Elas ficarão escritas-inscritas nesse
quarto nesse corpo e
daqui jamais sairão.
Este poema não se descolará do sulfite
não abrirá a porta
não tomará o ônibus e
muito menos cruzará a Zona Norte.

Este poema não a atingirá como
me atingiu naquele dia de janeiro
- há anos atrás -
a bala que ela meteu
vagarosamente no meu peito
naquele Verão em que tudo destroçava
silenciosamente quando seu
corpo perfurava a claridade das
manhãs de óleo diesel.

Este poema nunca será tão
forte quanto as saudades que
eu sentia ela ter de Portugal.
Nunca será tão vivo quanto a
cor das suas coxas naquelas fotografias
que tive que despedaçar.
Escrever este poema
- qualquer poema –
é perder tempo e sossego.

Nenhum deles nunca será aquele 26 de Janeiro.

Pequena Morte na (Eletri)Cidade


O estampido:
um clarão e o movimento para:
o transformador de luz elétrica cuspindo
fumaça e abaixo o pombo caído.
É uma manhã de segunda-feira e
refeito o susto a vida da rua continua.
O entra e sai das lojas e dos bancos
o cruzar correndo frente aos automóveis infinitos...
Mas para o pombo morto
eletrocutado
nunca mais essa chuva que cai
nunca mais a chuva.