quarta-feira, 11 de março de 2009

A Metamorfose


A culpa pelo assassinato
de uma barata
vibra em meus recônditos.
Cada vassourada
nenhum pensamento
apenas vontade irracional
de reduzi-la a gosma inerte.
Quantas mortes em minhas mãos!
quantos mosquitos e lacraias...

Era uma barata
que só
respirava
comia
trepava

Se por nojo e medo mereceu
o trespassamento pelas piaçavas
que mereço eu então
este inseticida
que só
respira
come
trepa?

domingo, 8 de março de 2009

Canções do Mar


I

As ondas incansáveis
quebrando e quebrando
ferozes
o barulho do mar...

O barulho do mar
é uma outra espécie de silêncio.


II

O mar
o mar noturno
batendo e batendo
inescrutável abismo gelado
uma coisa só com o céu escuro
uma coisa só...

A morte
imensa e espessa
a morte
deve ser como esse mar anoitecido

sábado, 7 de março de 2009

Na Pedra


Casinhas medievais na
beira do mangue
o cheiro de maresia
respirado por cada poro
e pela primeira vez
o pastel de siri.

Nosso caminho:
o cais de meninos pescadores
nas ruazinhas desertas
igrejinha e os
balanços de pneu sob
as árvores sob a sombra
sobre o chão folhado.

Barcos adormecidos na areia
me convidam a dormir
dentro da brisa e da calma
do sorriso dela que
convida a beleza do mundo.

Tudo é de nós dois
nesse lugar onde
todos os dias
parecem tardes de domingo.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Relicàrio


Tudo que sei de mais bonito
vem da solidão
vem do silêncio.
Percebi o porque do gosto
pelas fotografias antigas
de reler velhas cartas:
são ainda pessoas ali
inertes e caladas
preenchendo com o que já não mais é.

Foi o que amei e que se deixou aqui...

Descobri nas imagens e palavras do passado
que a verdade íntima do mundo
se contempla no tempo das saudades.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Em Todas as Coisas


Focalizo a janela do ônibus espelhando nossos rostos translúcidos,
e ao flagrá-la me sorrindo através do reflexo,
diante de mim a vejo ir sobrepondo seu rosto
na paisagem que corre por trás:
então os carros e os faróis me encaram com seus olhos,
a calçada e as portas das lojas me sorriem com seus lábios...
enxergar todas as coisas que ficam e que passam assim,
cristalizadas pelas feições dela,
é torná-la absoluta,
é reafirmar esse sentimento que,
desde que ela apareceu por aqui,
a coroou de onipresença nos instantes do meu dia.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Um Lugar



No sofá da varanda,
enquanto ela me aponta a árvore morta
que foi sombra durante sua infância,
eu, com minha vista de míope,
pensei que o brilho no olho em seu rosto de perfil
fosse uma única estrela esquecida no céu
depois que a chuva passou.

Devir Congelado


Menina do casaco rosa na garagem desbotada,
tecido tão rosa que a tinge inteira na pele do dia monocor,
leio sua impaciência nas ondas da sua testa,
sinto o frio que seus braços cruzados não podem impedir...
Por quem espera encolhida, encostada,
com esse seu semblante carregado?
Seus olhos lançados entre os vãos dos carros,
vão mais rápidos que eles sem te tirar do lugar.
Meu ônibus segue e te esquece pra trás,
mas te gravei nessa imagem fixada de espera,
então, nesse meu mundo que continua sendo,
não haverá devir para você:
em mim ficará ali eternamente esperando e esperando...
esperando que eu,
que você vai morrer sem conhecer,
apareça e lhe entregue um poema sobre você:
versos que falam de você esperando os versos de você esperando...
coisas que falam de você aguardando o que não sabe que foi feito,
ansiosa por palavras que você vai morrer sem saber que foram escritas.