segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Malabares


Malabarista do trânsito toda sujinha
seu cabelo em pé
o rosto mal pintado e
a tinta escorrida de suor lhe
empresta essa cara de palhacinho triste.

No sinal fechado se
abre a janela do carro lustroso e
eis que se arquiteta a imagem:
pelo vão se debruça uma outra menininha
só que dessa vez de porcelana
(seu pai não aparece através do vidro escuro)
e que tem a mesma idade que a malabarista
mas no entanto não a convida para brincar de boneca
não desce do carro para aprender esse
divertido truque de bolas da malabarista:
tudo que ela faz é lhe entregar o cachê do show
e ir embora.

Elas poderiam ser amigas de escola
mas ali
entre os carros fugazes da Avenida das Américas
não há infância possível para a malabarista
tudo reafirma a impossibilidade dela partilhar a
mesma realidade da menina que se foi no carro.

E ela vai continuar sua arte
(que é mais de sobreviver do
que circense)
até que se extinga sua inocência e
o seu caminho mude ou termine.

Estranhamente como um símbolo de tudo
me vem o pensamento de que
a malabarista não dançará seus
15 anos de sapatinhos novos
o seu quinhão
será sempre aqueles pés descalços
enegrecidos menos pela sua cor
do que pela sujeira e pelo asfalto quente.

domingo, 18 de outubro de 2009

Rito de Solitude


As mulheres cortam os cabelos.

Limpar o quarto nos domingos de
manhã tem o peso de um ritual.
Arrumar o armário tem suavemente
a melancolia das coisas que mudam
abrir as gavetas é trazer a tona
coisas esquecidas
cartas e fotografias e poemas e lembranças
que sempre voltam a deixar de existir na
desmemória das gavetas fechadas.

E no rádio a Bethânia cantando
algumas verdades insuportáveis.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Desencanto


Todo dia pela manhã a mesma
cara no espelho que a sonolência
nem me deixar ver.
Todo dia à noite o mesmo filme que
o cansaço só me permite ver os
primeiros vinte minutos.
No intervalo disso se tem
o mesmo trabalho:
um expediente inteiro de tédio.

Todo dia essa atrocidade
inabalável do cotidiano.

No ônibus pela manhã
Bukowski me diz que a vida é
uma merda portanto
aceite essa bosta:
caia nas orgias e se embebede
até morrer.
Mas a noite na cama
Schopenhauer também me
diz que a vida é uma merda
porém devemos nos elevar:
sejamos um santo ou Buda.

Sinceramente não sei o que fazer...

Pelo menos eu concordo com
os dois no fato de que a
vida é realmente uma merda.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O Mar


Hoje fui ver o mar.
Precisava da experiência do mar.
O mar é indizível
o mar não se importa com os homens
o mar nem sabe dos homens...

Nele tudo é apenas força
força imensa quebrando na terra desde
antes de qualquer possibilidade de memória.

É por isso que quando a onda se
choca contra o meu peito
ela impregna o mar em mim
prende em meus poros suas partículas
invisíveis de água e sal
e é como se eu passasse a carregar no corpo
essa divindade antiga e azul através dos
cinzas desgastados do subúrbio.
É como se eu trouxesse em mim
um pouco de oceano p’ra casa.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

I

as
cinco da manhã
a mariposa do tamanho de um morcego
que adentrou o meu quarto
bateu as asas ensandecida
não me deixando mais dormir

mas a gota d’água foi que ela
teve a insolência
de me perguntar no maior alvoroço:

-luis
por que tanta amargura
se ‘inda és tão moço?


II

um barulhão no meu telhado
fui ver
era um anjo de asas feridas
me sussurando em dissabor:

- ei luis
agora somos dois os caídos de amor!

domingo, 20 de setembro de 2009

RAPAZ SOLTEIRO PROCURA
uma dor para relacionamento sério
sem preferências quanto a tipo ou intensidade
contanto que seja uma dor honesta e que goste de doer
dores interessadas não precisam ligar
podem vir sem avisar

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Bílis Negra


A chuva repentina sempre traz vicissitudes.
Quando o vento rodopia as folhas mortas
no seu balé louco e triste,
alguma coisa em mim também faz ciranda inquieta e silenciosa.
Meu caminhar pelas ruas é célere e invisível,
como se eu fosse um Hermes, um andarilho do vento.
Eu amo essas chuvas como se eu fosse o próprio deus da chuva,
e trago em mim tanto Outono,
que já não sei mais brotar flores e nem dar frutos...
Eu te carrego inteira aqui dentro,
muito mais inteira e completa que minha própria vida,
nessas simples e únicas horas de melancolia,
que no saldo final,
tem muito mais peso que dias e dias de alegria...