sexta-feira, 9 de abril de 2010

Tempo de Mudança


Ela gira nos cômodos vazios
e imagina o lugar de cada móvel
sem supor que ela ali
parada na sala no quarto vazio já é
tudo o que o apartamento precisa.

Depois
ela ri e chora porque nunca
soube impedir de transbordar a alegria
que carrega no peito.
E emburra e faz pirraça feito
criança por saber que a grana talvez
seja curta demais.

É a hora que chega
a primavera que ela quis
momento de jardins cultivados a dois.

Ela sabe e sonha
-e me embala nesse sonho-
e assim me faz saber também
que pra esse amor tão grande
qualquer simples apartamento pequeno
no Méier na Lapa
pode ser o epicentro da reunião
entre o céu e a terra.

Tlatoc


No sol eu quase posso esquecer.
Mas sob a chuva
cada gota te grita na memória e
essa boca que grita se escancara também
para devorar as horas da madrugada.

Eu invoco o relâmpago e
me disperso em átomos
viajando no tempo do clarão
até o lugar onde essa hora
a chuva não te molha
onde você tece instantes em
que nem lembra mais que eu
já fui um deus da chuva.

Daqui a pouco vai ser manhã límpida
e eu poderei ser feliz novamente
(mesmo sem você).
Porque é no azul sereno de uma
manhã despida da noite do temporal
que eu e o mundo nos sabemos sem morte.

Kwan Yin


O primeiro sol reluz no mato criando
esse vasto campo de luz
criando flechas acesas apontadas para o céu.
O sol dessa manhã
o sol que cobre esse matagal em Campo Grande
é o mesmo sol de mil anos atrás
é o mesmo sol que esquentava os campos de arroz
dos antepassados da chinesinha da pastelaria.

E saio um pouco da fila do ônibus
dou um passo pra trás para admirá-la e ver
que ela é tão linda quanto imagino ser uma
manhã branca em Pequim.

A Existência do Relâmpago


I
O que vê um relâmpago antes
de fender o céu?
Coisas e pessoas diminutas:
alvos em potencial.
Mas seu existir é uma fração
um átimo...

Sem tempo de mirar ele se
precipita quase sempre em vão
quase nunca cai no mesmo lugar
(mas sim senhores
ele cai).

II
Eu li no Livro dos Recordes que um
homem sobreviveu ao longo da vida
a queda de cinco raios sobre ele.
Ele cometeu suicídio por
um amor não correspondido.

Fico pensando que eu não
sobreviveria a um raio sequer...
mas já sobrevivi a uns cinco suicídios por amor.
Mereço o Livro dos Recordes?

III
Estou precisando sorrir.
Por isso
aqui na casa sem luz
eu fico de olhos fechados sobre o colchão
só para que cada vez que vare um relâmpago
eu tenha um segundo de alegria por
achar que a luz voltou.

IV
Nessa noite de Domingo
os raios e o som da chuva me
trazem em um estalo
nostalgias de noites que não vivi...
(como estará a Camerino
a Gomes Freire e a Lavradio a
essa hora?)

V
Logo depois do clarão do relâmpago
o telefone toca.

Conversamos.

Ao desligarmos o telefone a
luz volta no mesmo instante.
O telefonema dela veio com a luz e
me trouxe a luz de volta:
a voz da Fernanda me salvando
de um intervalo escuro.

sábado, 6 de março de 2010

Como Devia Estar


Cheguei ao limite da vida comum.
Não quero mais ter a ver com
nada dessa rotina:
trabalhar trabalhar trabalhar
estudar estudar estudar
se aposentar para jogar damas na
praça esperando o AVC fulminante.

Como é que pode alguém
-quase na metade da vida-
ganhar esse salário medíocre e
ainda encontrar tempo pra escrever
essa poesia que não serve de nada?

Deveria mesmo era ter sido
um cientista ganhador do Nobel
um barão das drogas colombiano
um artilheiro da Copa do Mundo.

Mas que nada!
Queria mesmo era a vida de cinema:
cansado e ferido
-depois de ter sozinho eliminado
da face da terra dúzias de vilões-
ter as pessoas olhando aquelas
Tv’s enormes das Casas Bahia
exibindo todas ao mesmo tempo
eu e a Zhang Ziyi num último beijo
antes de subirem os letreiros.

Os Dias Sem


Ah
nem sou eu que penso nela!
São os filmes que sentem saudades
dos seus olhos
os livros que sentem falta das
suas mãos
as gavetas sem o cheiro
das suas roupas.

E este espelho aqui
que ainda espera ela pintar os olhos?
Os meus defeitos ansiando o
freio das suas críticas
o silêncio do quarto querendo se quebrar
novamente com o contínuo da sua fala.

Caralho!
Percebi...
Sou eu que ainda penso nela...

Subversão


Eu
este paradoxo encarnado:
às vezes Dalai Lama
às vezes Don Juan
ora lucidez
ora poesia
melancolia e carnaval.

Só que agora
depois que ela passou por aqui
já não sei mais voltar a ter
essas dicotomias.
Ela assoprou o castelo de cartas
bagunçou o coreto
embaralhou o quebra-cabeças...

Agora tudo é agonia.
Ela me fez desaprender a ser
o que eu era antes.