sábado, 8 de maio de 2010

Pequeno Tratado Sobre a Fenomenologia do Amor e da Solidão



I
O vermelho aceso dos faróis e dos sinais
nem de longe iluminam o
casal de namorados no banco da praça.
No centro do vaivém do trânsito
(na noite de Cascadura)
o amor surgindo de lugares inesperados
lança seus ecos ao longo da
avenida inteira.

O amor sabe se perpetuar.

II
As buzinas das lotações os
motores dos ônibus o
funk tocando alto na velocidade do
carro que passa
a noite se esvaindo num estrondo:
alguém em mim indo embora e
levando consigo a melhor parte.

III
Na madrugada o silêncio da
hora é ensurdecedor.
O ar é pesado
tem peso e densidade.
A madrugada tem cheiro e temperatura.
A madrugada é um corpo que me exila.

IV
Já de manhã
tudo existindo na fosca claridade:
a solidão simbolizada
cristalizada
nas lágrimas de um filme do Almodóvar.

A Canção do Divino Mestre (ou do princípio de individuação)


A noite passa nos filmes da TV a cabo
enquanto eu aqui nesse sofá
nem sei dos que se esvaem em
dor nos leitos dos hospitais
nem sei dos que trepam madrugada adentro.

Como pode um indivíduo existir
alheio a tantos bilhões de outros?
Como pode essa consciência estar aqui
entorpecida em meio a tanto
prazer e dor acontecendo no mundo
ao mesmo tempo?

sexta-feira, 30 de abril de 2010

O Sétimo Selo


Tristeza cansa.
Alegria também.

Sexo cansa.
Não comer ninguém cansa.

As pessoas cansam.
A solidão cansa.

O trabalho cansa
O ócio cansa.

Enfim
a vida inteira cansa.
Porém
só a morte
e a arte
descansam.

Aristóteles no Caos


A Via-Láctea é uma.
A Via-Láctea é uma
galáxia entre infinitas galáxias.
A Terra é um planeta
entre inumeráveis planetas e
na sua superfície carrega cinco
massas imensas de chão acima do mar
que chamam de continentes.
Os continentes têm neles linhas tatuadas
(apesar de que eu nunca vi nenhuma)
chamadas fronteiras.
Dentro dessas fronteiras existem países.
Um país é formado por homens e livros.
Os livros eu não sei quantos são mas
os homens são bilhões.
Dentre esses bilhões o
Luis Claudio Moutinho Rocha
este Kavita Kavita
a exemplo da Via-Láctea
é um
(mesmo crendo que a unidade é ilusória).

Mas sabe que também haveria de não ter sido nenhum
se o mínimo de um fato na vida de sua tataravó
poderia ter feito seu pai não conhecer sua mãe
se o átimo de um gesto feito
por um dinossauro a milhões de anos atrás
poderia fazer sua mãe ter morrido antes dele nascer.

Porém
contra as incontáveis adversidades e aleatoriedades
eis aqui este cara:
um átomo de um grão dentro do universo
feliz por ter nascido no Rio de Janeiro
mesma cidade em que ela mora:
no fim de tudo
tudo era só por ela.

Poema de Amor


Certas músicas
como essa agora aqui no MP3
me trazem uma insondável nostalgia
das luzes e habitantes na noite da Lapa.

Lembram de ir me
desfazendo
rolando meus átomos pra
dentro das frestas do casario
preenchendo os vãos entre as
pedras portuguesas
e ligando as ranhuras dos Arcos.

Fiquei impregnado na carne
da Joaquim Silva
da Rua da Lapa
da Mem de Sá...

Onipresente nas coisas
depois que eu morrer serão minhas
saudades e minhas vontades
-essas substâncias que residem fora do tempo-
que fluirão ainda entre os
cheiros de bebida mijo e maconha
da minha insone e amada babilônia.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Da Adversidade Viemos


Você às vezes me pede pra
escrever poeminhas bonitos...
Mas veja bem menina
como posso versejar coisas bonitas
se entre um CD do Caetano e outro eu
tenho o som das rajadas no Morro do Urubu?
Não dá pra ser esse poeta blasé moderninho
escrever essa poesia Bossa-Nova
se não há posto seis na janela
se do outro lado da rua cruza a toda
o parador do ramal Japeri.

Mas você bem sabe que
eu não quero mesmo o poema que vem
do azul de Ipanema e suas mulheres
esculturadas e queimadas de sol
(às vezes até quero).
Mas não
não quero Vinícius num bar de Copacabana...
quero ser Bukowski na Lapa cheio de
cachaça barata na cara.
Quero ler o futuro nas manchas e
rachaduras do viaduto do Jacaré
e conseguir arrancar poesia também do
riso falso das putas barrigudas de Madureira.

Não sei ver beleza em gestos banais
nunca aprendi a poetizar cotidianos.
O que sei e quero é ferir o bom senso
anestesiar o vazio de viver os dias.

Mas eu soube menina
que as flores de lótus brotam na lama
e talvez eu seja um bom poeta.
Mesmo aqui
contra todas as adversidades
geladeira vazia e paisagem suburbana
não tendo nada a ver com essa juventude que
faz suas lindas poesias nos seus quartos
de apartamento em Botafogo.

Fantasma Industrial


A noite se esforça para derrubar o temporal.
Lentamente o ônibus passa em
frente a uma fábrica fechada onde as
janelas acesas me angustiam.
Através delas eu vejo prateleiras
abarrotadas de caixas
através delas eu vejo o teto de cinza cru
dentro da moribunda luz branca.

Mas na janela do meio há um
resíduo de vida:
existe ali um mulher fumando.

Dentre tanta concretude
eu chego a duvidar da sua realidade:
talvez ela seja só o fantasma de uma lembrança
um espectro assombrando o velho prédio.
Mas definitivamente ela está lá àquela hora
na janela de uma fábrica vazia
sentindo entranhar nas narinas e nas
roupas o cheiro da nicotina.

Ela nunca suporá que olhá-la ali
-nós que nunca nos conheceremos-
na janela acesa de uma fábrica deserta
fumando numa noite de quase temporal
me deixou querendo que a chuva caia.
Deixou pra mim
sem motivo algum
uma volta pra casa bem mais triste.