sábado, 27 de fevereiro de 2010

Idealismo Alemão



Ela era linda e magricela
e veio até mim perguntando
qual era a melhor do edição do
“O Mundo Como Vontade e Como Representação”.
Pois bem
o que quero dizer é que
1) ela era linda
2) esquelética
3) e ainda iria começar a ler Schopenhauer
Depois que ela foi embora
-levando o livro na sacola-
eu percebi que a sua aparição deixou
pelo resto das horas
uma alegria um alívio:
a beleza cindindo o sufoco do dia.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

A Parada da Bateria


Pergunto onde estão teus tamborins?
-Zeca Baleiro

O carnaval chegou esquisito.
É como se fosse chegada a época
em que ele não poderá mais me pertencer.
Passei os dois últimos dias perdido
estranhamente esvaziado
no meio da folia.
Até a cerveja se recusava a embriagar
ela trazia em cada gole uma ânsia de vômito
tudo era cansaço de tudo...

Eu acho que esse verão Dionísio não
veio me visitar e
nem pôde mandar notícias...
Deve ter morrido no caminho.
De cirrose hepática ou de sífilis.

Por isso hoje
nesta segunda-feira quis o retiro:
vejo o sol que arde no silêncio das casas vizinhas
e sei que esse é o mesmo sol que queima os
meus amigos lá inseridos
na pele e na batida do carnaval...
enquanto eu aqui nesse sofá
-os cômodos todos dormindo-
bebendo coca-cola e assistindo Pulp-Fiction
vou me arrancando de mim mesmo
a unha e dente
desse corpo onde eu já não me caibo mais.

Les Yeux Sans Visage


Essa semana amanheci sombrio a cada dia.
Sou composto de silêncios mas
estava ainda para além disso:
estava hermeticamente fechado em mim mesmo.
E quem saberá o quanto isso pesa?

Talvez seja o traço de uma melancolia mais
densa que se avulta
ou talvez não seja nada mesmo
(talvez apenas o início do Retorno de Saturno).
Mas voltava do trabalho afogado na
noite do subúrbio
triste como as luzes acesas dos corredores vazios
das escolas públicas.

E aí no fone de ouvido chega de surpresa a
Bebel Gilberto e me aplica uma rasteira
fazendo a paisagem começar a tremular
quando sua voz aos poucos vai lacrimejando
todo esse meu olhar.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Bola Preta na Praça Vermelha




Sábado de manhãzinha
sentado no portão da minha casa
sem nada para fazer além
de mastigar o tédio e
sentir a brisa abafada que anuncia
um dia vazio.

Logo vai ser carnaval e o
verão se impõe e traz
todo o seu calor
todo o seu azul e amarelo que
acendem as coisas.

É manhãzinha e passei a noite
lendo uma antologia de poetas russos.
Poetas de nomes complicados
-que não guardei nenhum-
mas que eram tristes eles todos
(também pudera
com toda aquela neve
com toda aquela revolução)...

Eu sabia que àquela hora
o chão da Rio Branco estremecia com
o Cordão do Bola Preta
e que meus amigos no meio da massa
sorriam e pulavam
alegres e embriagados
enquanto eu me comprimia no vácuo
de um quarto sentindo na densidade
toda ausência
toda perda e vontade.

Mas agora
nessa manhã azulzinha de sábado
sentado no portão da minha casa
eu sorrio meio de lado e
sinto eletrificar cada pêlo do meu corpo
no anseio do carnaval que se aproxima...
mas é tudo só por um instante:
é uma sensação fugaz e que passa
como passam por mim essas brisas abafadas.

Tenho calor e a iminência do carnaval
(o total inverso da neve e da revolução)
mas sentado no portão da minha casa
correndo os olhos pelos paralelepípedos desertos
eu estou triste como um poeta russo.

O Yin Yang


A essa hora ela deve estar na
brisa fresca do seu imenso quintal
cortando alguns galhos
alimentando seus peixes...
fazendo tudo perfeito como ela
sempre fazia tudo
(quando arrumava as coisas do meu quarto
quando arrumava a minha vida).

Mas ela não anda mais por aqui...
pegou sua espaçonave e deixou
este meu asteróide onde cultivo desertos
e semeio o cinza de alguns dias de chuva.
Ela voltou para o seu planeta-jardim
onde ela cuidará de um mundo
que é inteiro setembro e primavera
e todo ele sabe que será feliz porque
será moldado no carinho das suas mãos.

E eu
único ser vivo nesta aridez silenciosa
volto a ser o seu oposto
fazendo aquilo o que sempre fiz:
o não saber cuidar de nada e nem de mim
apenas esta carnação da solidão
o não-existir de um quarto
desejo contemplação e melancolia.

Lá no planeta dela
(nas noites mais claras eu posso
vê-lo brilhando em azul pela minha janela)
ela pertence a todas as coisas
se entrega no seu amor absoluto
e a vida inteira anseia pelo seu riso.

Porém de tudo aqui
nada sente minha falta...
passo pelos dias vagando entre galáxias infinitas
um menino sentado na beira de um asteróide
escrevendo para que ao menos essa
folha de papel possa saber que existo.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Poema Infantil


Quando eu tinha lá meus 10 anos
minha avó pegou um gigantesco búzio
da estante da sua sala e me
mandou pôr no ouvido dizendo:
“Ele tem dentro o barulho do mar!”

No princípio fiquei encantado.

Mas conforme ia ouvindo aquilo
na minha já presente melancolia infantil
comecei a pensar naquele búzio
perdido pela imensidão azul do oceano
e comparando com a prateleira empoeirada
onde ele morava agora
respondi tristemente:
“Não vó
o que ele tem dentro dele
é só a voz de uma saudade...”

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

O primeiro raio fende o horizonte dos faróis e a brisa que passa em fatias pela fresta do vidro do carro traz um hálito de folhas secas, sussurra a promessa de uma madrugada de chumbo. A escuridão engole o topo dos postes, o alto dos prédios, e tudo é velocidade na noite do Centro, tudo é risco de luz nas onze horas da Zona Sul. No entorpecimento de uma estranha sonolência, todas as coisas me chegam fugidias, todas elas girando através das sensações dissimuladas do desejo... e nada do que existe além da janela me esquece, nada dessas horas saturninas pode me encontrar em mim mesmo, pois tenho meus olhos vigiando cada esquina, cada faixa de pedestre, cada menina do Flamengo, e vendo ali desabrocharem as flores levemente azuladas da melancolia.
A cidade inteira arde em néons psicotrópicos, enquanto o corpo da noite retém em mim um cheiro de chuva. No rádio, a força na voz da Gal ergue o peso da hora que se arrasta, enquanto tudo fala sobre você e não me desmente, tudo me adivinha e anuncia que já sobre o colchão, entre um sono e outro, eu vou te arquitetar em pensamentos que me escorrerão pelas pálpebras, que me escaparão entre as mãos.
Diluída na noite das minhas saudades você é a própria noite, e o silêncio é um último respiro antes do mau tempo se abater gritando sobre as avenidas desertas, e transbordá-las da água e da densidade da sua ausência.
Mas me enganei... a chuva cai, e vem trazendo alívio no seu som...
E é tão bom porque, esse alívio, não sei se outra coisa, nem mesmo você, a essa hora me traria...